segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Cardeais comestíveis

Hibiscus sabdariffa




É uma planta da família dos cardeais e do quiabo. Nativa da Índia, actualmente cultiva-se nas zonas tropicais de todo o mundo.

É anual e atinge 2,5 m. Em português era usual chamá-la vinagreira, por ser usada para dar cor ao vinho. Em França e nos países francófonos é Roselle.

Na Europa do Norte chamam-lhe Karkade. Os capítulos são usados em compotas, geleias, molhos, vinhos, gelatinas, bebidas refrescantes, pudins, bolos, chá, tartes, manteigas e gelados.

As folhas jovens consomem-se em saladas e como condimento. As sementes substituem o café. Dos ramos extraviem-se fibras.

Preparação

Primeiro lavam-se os capítulos, e escorrem-se. Depois faz-se um corte à volta do pedúnculo do cálice, para separar as sépalas da cápsula das sementes. Esta, junto com o pedúnculo é removida e descartada. Os cálices estão prontos para serem usados.

Podem ser simplesmente cortados em tiras e juntos a saladas de fruta, cozidos como pratos de acompanhamento ou cozidos com açúcar.

Secagem

A parte útil do capítulo pode secar-se ao Sol, numa estufa de laboratório (onde a temperatura não ultrapasse os 45º C), ou num forno eléctrico mantendo a porta aberta, na temperatura mínima durante 4 a 5 horas.

Chá

Por não se tratar da planta do chá, este termo é incorrecto; Deve-se dizer tisana, mas chá é mais usual.

O “chá” deve ser feito fervendo-se um punhado de capítulos durante 5 a 10 minutos, e depois deixando-se descansar outros 5. Serve-se coado. Pode usar-se os capítulos frescos ou secos.

Sumo, ou bebida fria

Trata-se de um ice-tea preparado com capítulos frescos ou secos, como se fosse chá. Também pode preparar-se mais concentrado, para guardar no frigorífico ou no congelador. Conserva-se bem desde que não se acrescente açúcar. Este deve juntar-se apenas na altura de servir.

Doces e compotas

Deve fazer-se como para os outros frutos, tendo em atenção que é um fruto com muita pectina e pouco doce. O ideal é talvez misturá-lo com outro fruto com características inversas.

Recomenda-se juntar água (em pequena quantidade), deixar cozer um pouco até ficar tenro e só então juntar açúcar e cozer durante 15 minutos. Para intensificar o sabor, experimente juntar o sumo de um limão.

Para uma textura mais fina, passa-se pela varinha mágica ou/e por um coador.

Flor de corte

Também é usada em arranjos florais como complemento de ramo.




sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Visconde do Porto da Cruz


Freguesia do Porto da Cruz (fotografia retirada daqui)

Neste post gostava de lembrar ou dar a conhecer um homem que muito contribuiu para a etnografia e folclore madeirenses. É autor dos registos mais antigos que eu conheço (1935), de usos tradicionais de plantas medicinais madeirenses. Gostava eu, um dia, de poder conhecer mais :)
Visconde do Porto da Cruz, de seu nome Alfredo António de Castro Teles de Meneses de Freitas Branco, nasceu em 1890 e faleceu 7 décadas mais tarde. Jornalista, contribuiu de forma inquestionável para o estudo etnográfico, literário, folclórico... Entre as suas obras, que são inúmeras, destaco os trabalhos de recolha de utilizações populares de plantas medicinais na ilha da Madeira. Mostra, de certa forma, a importância que este tipo de conhecimento tradicional teve na população nessa época, bem como o uso e algumas espécies utilizadas.
"É na grande variedade de plantas que o Povo vai buscar os preciosos elementos da sua farmacopeia. Essas montanhas gigantescas (...), esses cabeços e esses prados sempre vestidos de verde, esses jardins e as quintas com exuberante e bizarra vegetação, fornecem a matéria- prima exigida pela medicina popular da região."
in A Flora Madeirense - Na Medicina Popular e na Indústria, 1950

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Marroio

Marrubium vulgare L.

Planta pouco comum na Madeira mas que pode ser encontrada em quintais, cultivada, ou no estado espontâneo na Ponta de São Lourenço, no Porto Santo ou nas Desertas. É nativa da Europa.

Identificá-la é fácil recorrendo a imagens e sabendo que se trata de uma planta perene que cresce até cerca de 60cm, lança uns raminhos de secção quadrada com tendência a descansar sobre a terra, esbranquiçados, com um “feltro” branco. Quanto mais ao Sol mais esbranquiçada se torna. As folhas parecem enrugadinhas, espessas, podem crescer até 3cm e dispõem-se ao longo do raminho em frente uma da outra, alternando de posição (a primeira norte-sul, a segunda este-oeste). Lá para Maio, na axila de cada par de folhas aparece um leque de florinhas brancas inseridas num cálice com cerca de dez dentes. Ao secarem, estes dentes tornam-se rijos e agarram-se à roupa ou ao pêlo de quem lhes passar por perto.

Prefere solos pobres, bem drenados e calcários, pelo que, num quintal típico madeirense, pode ser difícil mantê-lo sem “melar”. Também não é fácil a reprodução: as sementes nascem mal e as estacas tardam a enraizar. O melhor método parece ser a mergulhia: cobrir com terra ou turfa dois ou mais raminhos, manter aí a terra húmida e esperar pelas raízes.

Por cá não temos encontrado quem dele se lembre, mas o Visconde do Porto da Cruz em 1951 cita o marroio como tónico, emenagogo, útil em bronquite e em males do fígado.

À semelhança dos que cá se fazem com o funcho, em algumas regiões do nosso país fazem-se rebuçados de marroio, com efeito expectorante.

Pimpinela

Mas não a pepinela mais conhecida por chuchu por terras continentais. Esta é uma Sanguisorba, talvez a officinalis ou talvez a minor. Deixo a escolha para os verdadeiros botânicos, por mim sou apenas aprendiz. Achei curiosa a fase feminina e depois masculina da flor.


sábado, 10 de novembro de 2007

Canela branca



A planta que os madeirenses conhecem por canela branca é uma planta suculenta, com talos erguidos de cerca de 10mm na base, tornando-se mais finos na extremidade. Estes talos têm, a espaços, nós de onde saem quatro a cinco folhas mais ou menos carnudas. O espaço entre os nós tende a ser mais comprido junto ao solo e a planta é toda verde: caule, folhas e inflorescência.

Trata-se da Peperomia galioides Kunth. Galioides significa semelhante a Galium, um género onde se insere uma planta que todos conhecem – o Galium aparine ou raspa-saia também conhecido como amor-de-hortelão.

Na Madeira é por vezes referida como anti-diarreica, amenizadora de dores menstruais ou fazendo parte de uma infusão com aguardente e muitas ervas para amenizar o pós-parto. O chá não tem cor mas é muito saboroso e aromático.

É oriunda da América Central e do Sul e o seu habitat são as terras altas em altitudes que podem chegar aos 3000m. Ocorre tanto no solo como em fendas de rochas. A sua suculência parece ser uma adaptação à secura fria.

No seu local de origem é usada para fins medicinais essencialmente como cicatrizante de feridas tanto externas (em compressas de folhas esmagadas) como internas (em úlceras gástricas).

Estudos farmacológicos descobriram nesta planta substâncias com efeitos cicatrizantes e anti-bacterianos.

Nunca a vimos produzir semente aqui na Madeira, mas propaga-se bem por estacaria. As estacas têm de ter pelo menos dois nós e retiram-se as folhas do nó que vai ser enterrado.

Esta planta não aparece descrita nem na Flora da Madeira nem nas diversas listas de plantas da Madeira organizadas desde o século XVIII. Não há por isso indicação de quando poderá ter sido introduzida.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Sabugueiro

Nome científico: Sambucus lanceolata
Origem: Espécie endémica da Madeira
Descrição: Árvore pequena ou arbusto, glabro, até 7 metros de altura; o tronco e ramos são branco-acinzentados. As folhas são compostas, com folíolos oblongos a oblongos-lanceolados, serrados. A inflorescência em corimbo com flores cremes ou brancas; os seus frutos são globulosos cinzentos-amarelados ou negros.
Utilizações: A infusão das flores foi apontada como diurética, emoliente, sudorífera, e com fim de "lavar e curar chagas"; para garganta irritada e dores de dentes utilizavam os madeirenses, segundo informações bibliográficas, a mesma infusão sob a forma de gargarejos; de igual modo, para contusões, feridas e úlceras foi mencionada uma cataplasma de folhas frescas. Na freguesia da Ilha - Santana, num trabalho recentemente feito, foi apontado por vários informantes, o chá de folhas frescas para banhos nas pernas e pés inchados. De forma a atenuar as dores menstruais, referiram a ingestão dum cálice de infusão em aguardente com os frutos da planta.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Inhame de lagartixa

É uma pequena planta com um rizoma tuberoso (um pequeno inhame) que pode atingir o tamanho de uma noz.

Pertence à família das Crassulácias. As folhas são verdes ou avermelhadas, peltadas, arredondadas e côncavas. As margens formam um recorte em ondinhas com um umbigo no meio.

Na Primavera lança uma haste ao longo da qual nascem pequenas flores esverdeadas em forma de tubo, onde se podem distinguir 5 sépalas de 1,5 a 5 mm, e uma corola em forma de campainha com cinco pétalas de cerca de um centímetro.

Muito comum em toda a ilha da Madeira, podemos encontrá-la entre as pedras dos muros e em qualquer parede vertical, de rocha ou de terra. Também aparece nos montes mais altos do Porto Santo, mas muito raramente, assim como na Deserta Grande.

As folhas jovens podem ser consumidas cruas em salada ou cozidas na sopa; do seu suco costumava fazer-se um remédio para a epilepsia mas a ciência não encontrou nenhuma substância que pudesse explicar esta crença. Por cá, além disso, as folhas pisadas eram aplicadas a chagas sob a forma de cataplasma.

Em Portugal chamam-lhe bacelos, conchelos, umbigo-de-vénus, orelhas de monge, fonógrafo, chapéus-dos-telhados, chapéus de parede. Na Europa alguns destes nomes traduzidos, e ainda outros que referem a semelhança das folhas a moedas ou ao umbigo (navelwort, pennywort), mas os madeirenses dão-lhe talvez o nome mais original: inhame de lagartixa.

segunda-feira, 30 de abril de 2007

Etnobotânica

A Etnobotânica é uma área da ciência recente e multidisciplinar, pois abarca conhecimentos da botânica, ecologia, medicina, etnologia, história, economia...
Segundo Martin (Ethnobotany. A Methods Manual, 2004), "Ethnobotany refers to the study of the interactions between people and plants."
Aqui em Portugal, pelo que sei, os primeiros trabalhos editados são de 2000, no entanto, em outros países, estes já vão sendo feitos há largos anos.
O vídeo seguinte encontrei-o, por incrível que pareça, no Youtube; é uma palestra de um etnobotânico que tem vindo a trabalhar na Amazónia desde a década de 80, e foi promovida, para grande supresa minha, pela Google Earth. Demonstra (para quem estiver interessado no assunto e tiver tempo para ver) o trabalho, a paciência e dedicação que terá de ter um etnobotânico.

É caso para dizer : "Quando for grande, quero ser assim" :)

quinta-feira, 15 de março de 2007

Lombrigueira, Formigueira

Nome científico: Chenopodium ambrosioides

O nome científico Chenopodium faz alusão à forma das folhas da maior parte das plantas deste género: cheno significa ganso e podium um pé pequeno. Ambrosioides é referente a Ambrósia, o néctar de que se alimentariam os deuses na Mitologia.
Na Madeira chamamos-lhe lombrigueira ou formigueira, este último termo talvez tente descrever o intenso cheiro desta planta quando se esfrega uma folha entre os dedos. Nos Açores é Usai-dela, um nome também muito sugestivo. Noutras partes do nosso país, é conhecida por Erva-enrola-peixe ou Erva-de-santa-maria.
Origem: América Central e do Sul

Descrição: Trata-se de uma erva alta, até 1 m, com muitos ramos por vezes avermelhados cobertos de folhas pequenas com dentes. As flores são minúsculas e dispõem-se em grande número em pequenas espigas ao longo da parte superior dos ramos. Produz centenas de sementes pretas, brilhantes, que nascem facilmente e podem levar a planta a espalhar-se mesmo por onde não é desejada.

Utilização: Esta planta foi referida como vermífuga, estomática, emenagogo, e calmante sobretudo em crises histéricas. O sumo da planta foi mencionado como tendo propriedades de cicatrização de chagas (pesquisa bibliografica).
Na freguesia da Ilha - Santana num trabalho recente, foi novamente apontado o chá de 3 ou 5 folhas frescas ou secas para as lombrigas, por vezes era adicionada hortelã pimenta (Mentha piperita).

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

Balada das Levadas

Águas mansas das levadas
não sois como as das ribeiras,
que em vindo o inverno inundam
casas, vinhedos e leiras
Na santa paz da montanha,
só se sente o seu cantar,
sempre igual e sempre novo,
num eterno caminhar.
Essa voz suave encerra
enigma doce e profundo...
- Cantais promessas do céu
ou chorais males do mundo?
À vossa beira se espelham
hortências, musgos e flores:
- velhos loureiros murmuram
loucas histórias de amores
As urzes esvaneceram
e os carvalhos já dobraram
ao peso de fartos liquenes
... e as águas nunca pararam.
Levadas da minha aldeia
galgando de monte em monte,
enchei de seiva esses vales,
cantai nas pedras da fonte.
Solitário viandante
que ides em longa canseira,
esta levada cantante
é uma fiel companheira.
Tudo seria mais triste
na quietude da serra,
se a vossa voz não se ouvisse
como a própria voz da terra.
As aves já aprenderam
o vosso lindo cantar;
- andam ensinando às flores
como se deve falar.
A serra já se não lembra
das gerações que passaram,
a vida vai e renova-se
... e as águas nunca pararam.

Alberto Figueira Gomes