quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Poema das Folhas Secas de Plátano

As folhas dos plátanos
desprendem-se e lançam-se na aventura do espaço,
e os olhos de uma pobre criatura
comovidos as seguem.
São belas as folhas dos plátanos
quando caem, nas tardes de Novembro
contra o fundo de um céu desgrenhado e sangrento.
Ondulam como os braços da preguiça
no indolente bocejo.
Sobem e descem, baloiçam-se e repousam,
traçam erres e esses, cicloides e volutas,
no espaço escrevem com o pecíolo breve,
numa caligrafia requintada, o nome que se pensa,
e seguem e regressam,
dedilhando em compassos sonolentos
a música outonal do entardecer.
São belas as folhas dos plátanos espalhadas no chão.
Eram lisas e verdes no apogeu
da sua juventude em clorofila,
mas agora, no outono de si mesmas,
o velho citoplasma, queimado e exausto pela luz do Sol,
deixou-se trespassar por afiado ácidos.
A verde clorofila, perdido o seu magnésio,
vestiu-se de burel,
de um tom que não é cor,
nem se sabe dizer que nome tenha,
a não ser o seu próprio,
folha seca de plátano.
A secura do Sol causticou-a de rugas,
um castanho mais denso acentuou-lhe os nervos,
e esta real e pobre criatura
vendo o solo coberto de folhas outonais
medita no malogro das coisas que a rodeiam:
dá-lhes o tom a ausência de magnésio;
os olhos, a beleza.

António Gedeão

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Mãozinhas de Nossa Senhora

Eriocephalus africanus L.

Também aqui chamado Alecrim da Virgem ou Alecrim de Nossa Senhora, é originário da África do Sul, província do Cabo, onde cresce espontaneamente e onde desde sempre lhe foram reconhecidas propriedades medicinais pelos povos indígenas.

A tradução do nome dado na sua terra natal seria “arbusto da neve do Cabo” (Cape snow bush) devido aos pompons brancos em que se transformam as flores na fase da frutificação.


Não sabemos quando terá chegado à Madeira. Podemos no entanto adivinhar ter vindo pela mão de algum emigrante conhecedor do valor dado na região de origem. Na Madeira parece não formar sementes viáveis, mas multiplica-se facilmente por estaca, pelo que as plantas existentes pela ilha deverão pertencer a um ou a poucos clones.

Cresce cerca de 1m de altura e largura, com folhas cilíndricas, algo suculentas, de 1 a 2 cm de comprimento por 1 a 1,5 mm de largura. As folhas são acinzentadas e crescem agrupadas em tufos ao longo dos lançamentos. Têm um cheiro característico que por vezes é descrito como semelhante a Vicks. Toda a planta tem um ar cinzento esverdeado.

A flor é um pequeno capítulo, com “pétalas” exteriores brancas e flores avermelhadas no interior. Aparecem em grande quantidade em Novembro e a floração prolonga-se por vários meses.

Consultando os trabalhos do Visconde do Porto da Cruz de meados do século passado, ficamos a saber que os madeirenses usavam esta planta para minorar a apoplexia: eram colocadas folhas de alecrim da virgem, arruda, louro, losna, rosmaninho, alecrim e murta sobre as brasas num prato de barro e, logo que começassem a fumegar, o prato era colocado debaixo da roupa de cama do doente que teria de ficar bem abafado, transpirar, e respirar esta mistura.

Ainda segundo o Visconde, raminhos desta planta serviam para perfumar a roupa guardada nas arcas.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Alecrim

O alecrim, de nome científico Rosmarinus officinalis, pertence à família Labiatae. O termo rosmarinus siginifica "orvalho marinho". É um sub-arbusto que pode atingir os 2 m de altura com folhas persistentes, lineares ou lobadas e de margens revolutas. As flores estão dispostas em cachos e possuem uma cor rosada a azulada.
O alecrim é uma planta introduzida de origem mediterrânea, utilizada na Ilha da Madeira na culinária, medicina popular, tradições religiosas e superstições.
A sua utilização, possivelmente a mais conhecida, é em curas contra o "mau-olhado" ou "invejas"; para isso, é necessário um ramo da planta e uma oração própria para o efeito, dita à pessoa com o mal. Segundo o Visconde do Porto da Cruz - autor madeirense com inúmeros trabalhos de etnografia realizados na década de 30 -, a planta era usada na medicina popular para várias doenças, tais como apoplexia, gripe, fastio, reumatismo e tosse. Mencionado também são os ramos para perfumaria, sendo estes colocados em arcas e gavetas; para tirar o mau cheiro de um quarto, os mesmos ramos foram apontados juntamente com cascas de pêros e uma pitada de açúcar, sendo posteriormente queimados sobre as brasas.
Outro uso muito interessante descrito pelo mesmo autor foi os perfumes feitos com incenso, alecrim e cascas de pêros para os pombos "acostumarem-se" aos pombais. Num trabalho recentemente realizado numa localidade da costa norte, o chá da planta foi também apontado para dores de cabeça, stress, enxaquecas, dores menstruais e má-disposição.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Bálsamo de canudo


Passeando pela Costa Sul da ilha da Madeira encontramos facilmente esta planta: azul acizentada, formada por tubinhos e espreguiçando-se ao Sol por um muro de pedra abaixo. É uma Asterácea oriunda da África do Sul.
Muitos usos lhe são atribuídos pelo Visconde do Porto da Cruz: para anemias, tuberculose, estancar feridas, terçois, etc. Ainda hoje a sua mais famosa utilização na Madeira é como colírio: cortar uma folha e espremer um pingo para dentro do olho inflamado.
Mas quanto a propriedades medicinais, parece sermos os únicos no mundo a atribuí-las (pelo menos no mundo virtual).
Na África do Sul é considerada uma planta venenosa. Já na Nova Zelândia naturalizou-se e, apesar de não formar sementes, espalhou-se pela ilha e tem o estatuto de invasora.
Em inglês chamam-lhe pau de giz azul (blue chalkstick). Alguns madeirenses chamam-lhe também bálsamo sagrado o que vem reforçar o apreço que lhe dedicamos.
Eis algumas receitas referidas pelo Visconde do Porto da Cruz: contra a anemia beber em jejum um cálice duma infusão desta planta em vinho madeira; Contra a tuberculose, também em jejum mas só o sumo. Há ainda uma outra receita com caracóis inteiros esmagados. Ainda segundo aquele autor, o sumo do bálsamo de canudo é um bom cicatrizante de feridas e chagas e pode dar alívio a queimaduras.
Para propagar basta enfiar um galhinho pela terra dentro. De preferência num local com muito Sol e muita drenagem e com espaço para cair muro abaixo.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Artemija, Artemísia, Alfinetes de Nossa Senhora

Esta planta com nome muito particular, designa-se por Tanacetum parthenium e pertence à família Asteraceae.
É nativa do Sul da Europa, Norte de África e do Sudoeste da Ásia, subespontânea em Portugal Continental e Açores. Segundo a Flora da Madeira de R. Vieira (2002) na Madeira foi introduzida como ornamental, dispersando-se rapidamente pelas zonas baixas e médias das costas norte e sul.

É uma herbácea perene de folhas ovadas a oblongas, penatifendidas a penatipartidas, com capítulos numerosos, brácteas lanceoladas, lígulas brancas e flores do disco amarelas. Possuí um cheiro muito característico.
Na ilha da Madeira o chá da planta tem várias utilizações, diurética, estimulante e tónico. Numa pequena localidade da costa norte, foi também apontada para problemas de rins, bexiga e infecções urinárias.
Foto da planta retirada daqui

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Cardeais comestíveis

Hibiscus sabdariffa




É uma planta da família dos cardeais e do quiabo. Nativa da Índia, actualmente cultiva-se nas zonas tropicais de todo o mundo.

É anual e atinge 2,5 m. Em português era usual chamá-la vinagreira, por ser usada para dar cor ao vinho. Em França e nos países francófonos é Roselle.

Na Europa do Norte chamam-lhe Karkade. Os capítulos são usados em compotas, geleias, molhos, vinhos, gelatinas, bebidas refrescantes, pudins, bolos, chá, tartes, manteigas e gelados.

As folhas jovens consomem-se em saladas e como condimento. As sementes substituem o café. Dos ramos extraviem-se fibras.

Preparação

Primeiro lavam-se os capítulos, e escorrem-se. Depois faz-se um corte à volta do pedúnculo do cálice, para separar as sépalas da cápsula das sementes. Esta, junto com o pedúnculo é removida e descartada. Os cálices estão prontos para serem usados.

Podem ser simplesmente cortados em tiras e juntos a saladas de fruta, cozidos como pratos de acompanhamento ou cozidos com açúcar.

Secagem

A parte útil do capítulo pode secar-se ao Sol, numa estufa de laboratório (onde a temperatura não ultrapasse os 45º C), ou num forno eléctrico mantendo a porta aberta, na temperatura mínima durante 4 a 5 horas.

Chá

Por não se tratar da planta do chá, este termo é incorrecto; Deve-se dizer tisana, mas chá é mais usual.

O “chá” deve ser feito fervendo-se um punhado de capítulos durante 5 a 10 minutos, e depois deixando-se descansar outros 5. Serve-se coado. Pode usar-se os capítulos frescos ou secos.

Sumo, ou bebida fria

Trata-se de um ice-tea preparado com capítulos frescos ou secos, como se fosse chá. Também pode preparar-se mais concentrado, para guardar no frigorífico ou no congelador. Conserva-se bem desde que não se acrescente açúcar. Este deve juntar-se apenas na altura de servir.

Doces e compotas

Deve fazer-se como para os outros frutos, tendo em atenção que é um fruto com muita pectina e pouco doce. O ideal é talvez misturá-lo com outro fruto com características inversas.

Recomenda-se juntar água (em pequena quantidade), deixar cozer um pouco até ficar tenro e só então juntar açúcar e cozer durante 15 minutos. Para intensificar o sabor, experimente juntar o sumo de um limão.

Para uma textura mais fina, passa-se pela varinha mágica ou/e por um coador.

Flor de corte

Também é usada em arranjos florais como complemento de ramo.




sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Visconde do Porto da Cruz


Freguesia do Porto da Cruz (fotografia retirada daqui)

Neste post gostava de lembrar ou dar a conhecer um homem que muito contribuiu para a etnografia e folclore madeirenses. É autor dos registos mais antigos que eu conheço (1935), de usos tradicionais de plantas medicinais madeirenses. Gostava eu, um dia, de poder conhecer mais :)
Visconde do Porto da Cruz, de seu nome Alfredo António de Castro Teles de Meneses de Freitas Branco, nasceu em 1890 e faleceu 7 décadas mais tarde. Jornalista, contribuiu de forma inquestionável para o estudo etnográfico, literário, folclórico... Entre as suas obras, que são inúmeras, destaco os trabalhos de recolha de utilizações populares de plantas medicinais na ilha da Madeira. Mostra, de certa forma, a importância que este tipo de conhecimento tradicional teve na população nessa época, bem como o uso e algumas espécies utilizadas.
"É na grande variedade de plantas que o Povo vai buscar os preciosos elementos da sua farmacopeia. Essas montanhas gigantescas (...), esses cabeços e esses prados sempre vestidos de verde, esses jardins e as quintas com exuberante e bizarra vegetação, fornecem a matéria- prima exigida pela medicina popular da região."
in A Flora Madeirense - Na Medicina Popular e na Indústria, 1950

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Marroio

Marrubium vulgare L.

Planta pouco comum na Madeira mas que pode ser encontrada em quintais, cultivada, ou no estado espontâneo na Ponta de São Lourenço, no Porto Santo ou nas Desertas. É nativa da Europa.

Identificá-la é fácil recorrendo a imagens e sabendo que se trata de uma planta perene que cresce até cerca de 60cm, lança uns raminhos de secção quadrada com tendência a descansar sobre a terra, esbranquiçados, com um “feltro” branco. Quanto mais ao Sol mais esbranquiçada se torna. As folhas parecem enrugadinhas, espessas, podem crescer até 3cm e dispõem-se ao longo do raminho em frente uma da outra, alternando de posição (a primeira norte-sul, a segunda este-oeste). Lá para Maio, na axila de cada par de folhas aparece um leque de florinhas brancas inseridas num cálice com cerca de dez dentes. Ao secarem, estes dentes tornam-se rijos e agarram-se à roupa ou ao pêlo de quem lhes passar por perto.

Prefere solos pobres, bem drenados e calcários, pelo que, num quintal típico madeirense, pode ser difícil mantê-lo sem “melar”. Também não é fácil a reprodução: as sementes nascem mal e as estacas tardam a enraizar. O melhor método parece ser a mergulhia: cobrir com terra ou turfa dois ou mais raminhos, manter aí a terra húmida e esperar pelas raízes.

Por cá não temos encontrado quem dele se lembre, mas o Visconde do Porto da Cruz em 1951 cita o marroio como tónico, emenagogo, útil em bronquite e em males do fígado.

À semelhança dos que cá se fazem com o funcho, em algumas regiões do nosso país fazem-se rebuçados de marroio, com efeito expectorante.

Pimpinela

Mas não a pepinela mais conhecida por chuchu por terras continentais. Esta é uma Sanguisorba, talvez a officinalis ou talvez a minor. Deixo a escolha para os verdadeiros botânicos, por mim sou apenas aprendiz. Achei curiosa a fase feminina e depois masculina da flor.


sábado, 10 de novembro de 2007

Canela branca



A planta que os madeirenses conhecem por canela branca é uma planta suculenta, com talos erguidos de cerca de 10mm na base, tornando-se mais finos na extremidade. Estes talos têm, a espaços, nós de onde saem quatro a cinco folhas mais ou menos carnudas. O espaço entre os nós tende a ser mais comprido junto ao solo e a planta é toda verde: caule, folhas e inflorescência.

Trata-se da Peperomia galioides Kunth. Galioides significa semelhante a Galium, um género onde se insere uma planta que todos conhecem – o Galium aparine ou raspa-saia também conhecido como amor-de-hortelão.

Na Madeira é por vezes referida como anti-diarreica, amenizadora de dores menstruais ou fazendo parte de uma infusão com aguardente e muitas ervas para amenizar o pós-parto. O chá não tem cor mas é muito saboroso e aromático.

É oriunda da América Central e do Sul e o seu habitat são as terras altas em altitudes que podem chegar aos 3000m. Ocorre tanto no solo como em fendas de rochas. A sua suculência parece ser uma adaptação à secura fria.

No seu local de origem é usada para fins medicinais essencialmente como cicatrizante de feridas tanto externas (em compressas de folhas esmagadas) como internas (em úlceras gástricas).

Estudos farmacológicos descobriram nesta planta substâncias com efeitos cicatrizantes e anti-bacterianos.

Nunca a vimos produzir semente aqui na Madeira, mas propaga-se bem por estacaria. As estacas têm de ter pelo menos dois nós e retiram-se as folhas do nó que vai ser enterrado.

Esta planta não aparece descrita nem na Flora da Madeira nem nas diversas listas de plantas da Madeira organizadas desde o século XVIII. Não há por isso indicação de quando poderá ter sido introduzida.