segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Fedegoso

Fedegoso, Cavaleira, Visigodes, Cavaloa ou Trevo-betuminoso, são inúmeros os nomes vulgares pertencentes a esta planta de nome científico Bituminaria bituminosa.

Esta espécie pertence à família Fabaceae e é indígena da Madeira, Canárias, sul da Europa, norte de África e oeste da Ásia. Na ilha da Madeira, é frequente em locais expostos e secos até aos 650 m de altitude, junto ao mar e no interior, ao longo de caminhos ou em terrenos agrícolas abandonados.

É uma herbácea perene, pubescente de folhas trifoliadas, cujos foliólos são ovados-orbiculares a lineares-lanceolados; as flores estão dispostas em capítulos de 4-17 flores, de cor azul-violácea a branco; o seu fruto é uma vagem com pêlos brancos e pretos. Possui um cheiro forte a betume ou a nafta.

Esta planta, segundo alguns dados etnográficos existentes, era utilizada na ilha da Madeira como tónico capilar.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Losna


Artemisia argentea

Pode considerar-se esta planta um sucesso de domesticação, uma vez que saltou das zonas secas do litoral rochoso da Madeira, do Porto Santo e das Desertas, para os terrenos cultivados, geralmente beiras de muro e foi-lhe dado um uso.

A losna é endémica e foi classificada, no século XVIII por um francês chamado Charles Louis L´Héritier.

A velha citação bíblica “Eis que lhes darei a comer losna, e lhes farei beber águas de fel” referindo-se a outra Artemísia provavelmente a Artemisia absinthium ou a Artemisia vulgaris indica-nos uma característica deste género: é considerada uma das plantas mais amargas ao paladar, só ultrapassada, entre as vulgares na Europa, pela Arruda.

As primas Artemisia absinthium e Artemisia vulgaris são conhecidas e utilizadas desde a antiguidade, a primeira para males de estômago (era o constituinte original do famoso Vermut) e a segunda para “desordens femininas”.

É de crer que os primeiros colonizadores, ao reconhecer parecenças com estas duas, a tenham levado para casa e experimentado os seus benefícios. A planta ajudou, ao ter-se mostrado de fácil cultivo e propagação. Pega de galho e basta-lhe o canto de um muro, muito Sol e boa drenagem.

Reconhecê-la é fácil por ser toda ela de uma cor cinzenta, quase branca, atingir cerca de um metro em altura e largura, e invariavelmente encontrar-se debruçada para fora do muro. As suas folhas esmagadas entre os dedos têm um aroma característico, qualquer coisa entre o chocolate e um produto limpa móveis.

A população madeirense usava as folhas e sumidades floridas em infusão como vermífugo, estomástico, no tratamento da apoplexia e como emenagogo, usos estes explicados pelo Visconde do Porto da Cruz nos seus escritos do princípio do século XX, e referidos também por outros autores.

É uma planta rústica e forma um arbusto bonito que poderá ornamentar qualquer jardim.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

A Um Carvalho

Eis o pai da montanha, o bíblico MoisésVegetal!
Falou com Deus também,
E debaixo dos pés,
inominada, tem
A lei da vida em pedra natural!

Forte como um destino,
Calmo como um pastor,
E sempre pontual e matutino
A receber o frio e o calor!

Barbas, rugas e veias
De gigante.
Mas, sobretudo, braços!
Longos e negros desmedidos traços,
Gestos solenes duma fé constante...

Folhas verdes à volta do desejo
Que amadurece.
E nos olha a prece
Da eternidade
Eis o pai da montanha, o fálico pagão
Que se veste de neve e guarda a mocidade
No coração!

Miguel Torga
(Foto retirada daqui)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Tomate Barrela

Originária da América do Sul, esta espécie, de seu nome Physalis peruviana, é conhecida na ilha da Madeira por: tomate barrela, tomate de capucho, tomate inglês e tomateiro inglês.

Pertence à família Solanaceae, é uma planta perene, pubescente, de folhas alternas ovadas com margens inteiras ou remotamente dentadas, de flores solitárias em forma de campânula, amarelas, com 5 manchas lilacínias. O fruto é uma baga redonda amarela de 11-15 mm, encerrada pelo cálice.

Segundo a bibliografia, é uma planta totalmente naturalizada, comum no séc. XIX, no entanto, tornando-se escassa ao longo do tempo.

Hoje ainda é cultivada em certas localidades, sendo o seu fruto consumido fresco ou em compota. Outra utilização muito curiosa, na freguesia da Ilha-Santana, era para branquear as peças de linho, utilizadas para confeccionar vestuário para a população, há muitos anos. Para isso, o linho era colocado numa bacia com cinza, em seguida deitavam as seguintes ervas: saramago (Raphanus raphanistrum), feitinhas mansas (Athyrium filix-femina) e o tomate barrela, (Physalis peruviana) fervidas em água; e deixadas as peças de linho corar.
Esta mistura, como mais tarde explicaram-me na freguesia citada, era designada por barrela; interrogo-me, desde então, se desta mistura não teria nascido o nome popular tomate barrela - neste caso, tomate da barrela...

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Poema das Folhas Secas de Plátano

As folhas dos plátanos
desprendem-se e lançam-se na aventura do espaço,
e os olhos de uma pobre criatura
comovidos as seguem.
São belas as folhas dos plátanos
quando caem, nas tardes de Novembro
contra o fundo de um céu desgrenhado e sangrento.
Ondulam como os braços da preguiça
no indolente bocejo.
Sobem e descem, baloiçam-se e repousam,
traçam erres e esses, cicloides e volutas,
no espaço escrevem com o pecíolo breve,
numa caligrafia requintada, o nome que se pensa,
e seguem e regressam,
dedilhando em compassos sonolentos
a música outonal do entardecer.
São belas as folhas dos plátanos espalhadas no chão.
Eram lisas e verdes no apogeu
da sua juventude em clorofila,
mas agora, no outono de si mesmas,
o velho citoplasma, queimado e exausto pela luz do Sol,
deixou-se trespassar por afiado ácidos.
A verde clorofila, perdido o seu magnésio,
vestiu-se de burel,
de um tom que não é cor,
nem se sabe dizer que nome tenha,
a não ser o seu próprio,
folha seca de plátano.
A secura do Sol causticou-a de rugas,
um castanho mais denso acentuou-lhe os nervos,
e esta real e pobre criatura
vendo o solo coberto de folhas outonais
medita no malogro das coisas que a rodeiam:
dá-lhes o tom a ausência de magnésio;
os olhos, a beleza.

António Gedeão

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Mãozinhas de Nossa Senhora

Eriocephalus africanus L.

Também aqui chamado Alecrim da Virgem ou Alecrim de Nossa Senhora, é originário da África do Sul, província do Cabo, onde cresce espontaneamente e onde desde sempre lhe foram reconhecidas propriedades medicinais pelos povos indígenas.

A tradução do nome dado na sua terra natal seria “arbusto da neve do Cabo” (Cape snow bush) devido aos pompons brancos em que se transformam as flores na fase da frutificação.


Não sabemos quando terá chegado à Madeira. Podemos no entanto adivinhar ter vindo pela mão de algum emigrante conhecedor do valor dado na região de origem. Na Madeira parece não formar sementes viáveis, mas multiplica-se facilmente por estaca, pelo que as plantas existentes pela ilha deverão pertencer a um ou a poucos clones.

Cresce cerca de 1m de altura e largura, com folhas cilíndricas, algo suculentas, de 1 a 2 cm de comprimento por 1 a 1,5 mm de largura. As folhas são acinzentadas e crescem agrupadas em tufos ao longo dos lançamentos. Têm um cheiro característico que por vezes é descrito como semelhante a Vicks. Toda a planta tem um ar cinzento esverdeado.

A flor é um pequeno capítulo, com “pétalas” exteriores brancas e flores avermelhadas no interior. Aparecem em grande quantidade em Novembro e a floração prolonga-se por vários meses.

Consultando os trabalhos do Visconde do Porto da Cruz de meados do século passado, ficamos a saber que os madeirenses usavam esta planta para minorar a apoplexia: eram colocadas folhas de alecrim da virgem, arruda, louro, losna, rosmaninho, alecrim e murta sobre as brasas num prato de barro e, logo que começassem a fumegar, o prato era colocado debaixo da roupa de cama do doente que teria de ficar bem abafado, transpirar, e respirar esta mistura.

Ainda segundo o Visconde, raminhos desta planta serviam para perfumar a roupa guardada nas arcas.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Alecrim

O alecrim, de nome científico Rosmarinus officinalis, pertence à família Labiatae. O termo rosmarinus siginifica "orvalho marinho". É um sub-arbusto que pode atingir os 2 m de altura com folhas persistentes, lineares ou lobadas e de margens revolutas. As flores estão dispostas em cachos e possuem uma cor rosada a azulada.
O alecrim é uma planta introduzida de origem mediterrânea, utilizada na Ilha da Madeira na culinária, medicina popular, tradições religiosas e superstições.
A sua utilização, possivelmente a mais conhecida, é em curas contra o "mau-olhado" ou "invejas"; para isso, é necessário um ramo da planta e uma oração própria para o efeito, dita à pessoa com o mal. Segundo o Visconde do Porto da Cruz - autor madeirense com inúmeros trabalhos de etnografia realizados na década de 30 -, a planta era usada na medicina popular para várias doenças, tais como apoplexia, gripe, fastio, reumatismo e tosse. Mencionado também são os ramos para perfumaria, sendo estes colocados em arcas e gavetas; para tirar o mau cheiro de um quarto, os mesmos ramos foram apontados juntamente com cascas de pêros e uma pitada de açúcar, sendo posteriormente queimados sobre as brasas.
Outro uso muito interessante descrito pelo mesmo autor foi os perfumes feitos com incenso, alecrim e cascas de pêros para os pombos "acostumarem-se" aos pombais. Num trabalho recentemente realizado numa localidade da costa norte, o chá da planta foi também apontado para dores de cabeça, stress, enxaquecas, dores menstruais e má-disposição.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Bálsamo de canudo


Passeando pela Costa Sul da ilha da Madeira encontramos facilmente esta planta: azul acizentada, formada por tubinhos e espreguiçando-se ao Sol por um muro de pedra abaixo. É uma Asterácea oriunda da África do Sul.
Muitos usos lhe são atribuídos pelo Visconde do Porto da Cruz: para anemias, tuberculose, estancar feridas, terçois, etc. Ainda hoje a sua mais famosa utilização na Madeira é como colírio: cortar uma folha e espremer um pingo para dentro do olho inflamado.
Mas quanto a propriedades medicinais, parece sermos os únicos no mundo a atribuí-las (pelo menos no mundo virtual).
Na África do Sul é considerada uma planta venenosa. Já na Nova Zelândia naturalizou-se e, apesar de não formar sementes, espalhou-se pela ilha e tem o estatuto de invasora.
Em inglês chamam-lhe pau de giz azul (blue chalkstick). Alguns madeirenses chamam-lhe também bálsamo sagrado o que vem reforçar o apreço que lhe dedicamos.
Eis algumas receitas referidas pelo Visconde do Porto da Cruz: contra a anemia beber em jejum um cálice duma infusão desta planta em vinho madeira; Contra a tuberculose, também em jejum mas só o sumo. Há ainda uma outra receita com caracóis inteiros esmagados. Ainda segundo aquele autor, o sumo do bálsamo de canudo é um bom cicatrizante de feridas e chagas e pode dar alívio a queimaduras.
Para propagar basta enfiar um galhinho pela terra dentro. De preferência num local com muito Sol e muita drenagem e com espaço para cair muro abaixo.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Artemija, Artemísia, Alfinetes de Nossa Senhora

Esta planta com nome muito particular, designa-se por Tanacetum parthenium e pertence à família Asteraceae.
É nativa do Sul da Europa, Norte de África e do Sudoeste da Ásia, subespontânea em Portugal Continental e Açores. Segundo a Flora da Madeira de R. Vieira (2002) na Madeira foi introduzida como ornamental, dispersando-se rapidamente pelas zonas baixas e médias das costas norte e sul.

É uma herbácea perene de folhas ovadas a oblongas, penatifendidas a penatipartidas, com capítulos numerosos, brácteas lanceoladas, lígulas brancas e flores do disco amarelas. Possuí um cheiro muito característico.
Na ilha da Madeira o chá da planta tem várias utilizações, diurética, estimulante e tónico. Numa pequena localidade da costa norte, foi também apontada para problemas de rins, bexiga e infecções urinárias.
Foto da planta retirada daqui

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Cardeais comestíveis

Hibiscus sabdariffa




É uma planta da família dos cardeais e do quiabo. Nativa da Índia, actualmente cultiva-se nas zonas tropicais de todo o mundo.

É anual e atinge 2,5 m. Em português era usual chamá-la vinagreira, por ser usada para dar cor ao vinho. Em França e nos países francófonos é Roselle.

Na Europa do Norte chamam-lhe Karkade. Os capítulos são usados em compotas, geleias, molhos, vinhos, gelatinas, bebidas refrescantes, pudins, bolos, chá, tartes, manteigas e gelados.

As folhas jovens consomem-se em saladas e como condimento. As sementes substituem o café. Dos ramos extraviem-se fibras.

Preparação

Primeiro lavam-se os capítulos, e escorrem-se. Depois faz-se um corte à volta do pedúnculo do cálice, para separar as sépalas da cápsula das sementes. Esta, junto com o pedúnculo é removida e descartada. Os cálices estão prontos para serem usados.

Podem ser simplesmente cortados em tiras e juntos a saladas de fruta, cozidos como pratos de acompanhamento ou cozidos com açúcar.

Secagem

A parte útil do capítulo pode secar-se ao Sol, numa estufa de laboratório (onde a temperatura não ultrapasse os 45º C), ou num forno eléctrico mantendo a porta aberta, na temperatura mínima durante 4 a 5 horas.

Chá

Por não se tratar da planta do chá, este termo é incorrecto; Deve-se dizer tisana, mas chá é mais usual.

O “chá” deve ser feito fervendo-se um punhado de capítulos durante 5 a 10 minutos, e depois deixando-se descansar outros 5. Serve-se coado. Pode usar-se os capítulos frescos ou secos.

Sumo, ou bebida fria

Trata-se de um ice-tea preparado com capítulos frescos ou secos, como se fosse chá. Também pode preparar-se mais concentrado, para guardar no frigorífico ou no congelador. Conserva-se bem desde que não se acrescente açúcar. Este deve juntar-se apenas na altura de servir.

Doces e compotas

Deve fazer-se como para os outros frutos, tendo em atenção que é um fruto com muita pectina e pouco doce. O ideal é talvez misturá-lo com outro fruto com características inversas.

Recomenda-se juntar água (em pequena quantidade), deixar cozer um pouco até ficar tenro e só então juntar açúcar e cozer durante 15 minutos. Para intensificar o sabor, experimente juntar o sumo de um limão.

Para uma textura mais fina, passa-se pela varinha mágica ou/e por um coador.

Flor de corte

Também é usada em arranjos florais como complemento de ramo.