sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

- O Fascinante Mundo das Plantas -

     Na época de Natal, os dias mais curtos e as temperaturas mais baixas, convida-nos a estar mais tempo em casa, e entre o convívio com família e amigos, fica sempre algum tempo disponível para ver um filme, um documentário enquanto bebericamos e queimamos a língua, com um cacau quente. Para os entusiastas das plantas fica aqui a sugestão, rever - O Reino das Plantas - realizado pela BBC e narrado por  Sir David Attenborough. Bom Natal!
 
 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Bolo de Mel de Cana de Açucar

       Nesta altura,  meados de Dezembro, após as típicas limpezas da época, a cera passada no soalho, o óleo de cedro nos móveis, saem dos armários da cozinha  as receitas, só vistas uma vez por ano e onde constam os ingredientes usados para a confeção dos típicos bolos de mel. 
      Neste bolo, misturam-se odores e sabores individualmente únicos,  mas soberbos quando em conjunto, as especiarias, Cinnamomum zeylanicum Garc. Ex. Blume  (canela) e Myristica fragans  (noz moscada), a cidra Citrus medica L., os frutos secos, Juglans regia L. (nozes), Prunus dulcis (Mill.) D.A. Webb. (amêndoas) e o mel de cana de açúcar, Saccharum officinarum L., produzido na ilha. Ironicamente, todas estas plantas são originárias do continente asiático, algumas chegadas até à ilha da Madeira devido à época dos Descobrimentos e possivelmente, à importância geográfica da região, como ponto de convergência entre os diversos arquipélagos macaronésicos e os distantes continentes.   
    Adicionamos ainda, a farinha, banha de porco, fermento royal, vinho madeira e outros tantos ingredientes. Algum tempo depois, teremos um bolo que deverá ser  partido com as mãos e acompanhado, se seguir a boa tradição madeirense, com um bom cálice de vinho Madeira, meio seco...

Foto

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Figueira

       A figueira, Ficus carica L. é nativa do sudoeste da Ásia, tendo sido introduzida na Ilha da Madeira  no início do povoamento. Pertencente à família Moraceae, pensa-se que foi domesticada na região do crescente fértil (hoje, Irão, Iraque, Síria, sul da Turquia, Jordânia, Israel e Egipto) e nas áreas secas a sul da Mesopotâmia. Os primeiros indícios do seu cultivo remonta aos 3000 bC, tendo posteriormente se propagado pelo Mediterrâneo, Índia, China, chegando apenas no século XVI ao Novo Mundo. Podendo atingir os 10 mts, as suas folhas são caducas (caem no Inverno) e os figos são pseudofrutos, sicónios, resultado de uma inflorescência.
        Na ilha da Madeira, o chá das folhas era usado para a gripe e constipações, diabetes e reumatismo, os figos ou mel do mesmo fruto eram colocados sobre os furúnculos e o látex usado para as verrugas.
         No Natal, em casa de famílias mais humildes, nas zonas rurais, a confeção do tradicional bolo de mel era feita com mel de figos que substituía o mel de cana de açúcar comprado nas mercearias.
Este mel era preparado nos meses de Verão, logo que os figos ficavam maduros. O processo era moroso, estes eram primeiro cozidos, depois colocados dentro de uma saca e apertados para extrair o suco, que era fervido e donde resultava um líquido doce, amarelo torrado e meio viscoso, avidamente comido com pão. Só após uma segunda cozedura é que obtínhamos o mel, pastoso, mais escuro e com um sabor estranhamente similar ao mel de cana.
Hoje, enquanto saboreio um figo bem maduro, o palato e a memória são estimulados, surgindo lembranças das visitas à casa dos meus avós, dos risos, do cheiro a férias de Verão, e do sorriso do meu avô rodeado pelos netos, que despreocupadamente riam e comiam figos. Crianças, acreditando ainda em contos de fadas, onde a vida é sempre  justa e simples, as pessoas francas e frontais, não se deixando iludir e manipular por ventos e marés, e que valores, tais como a lealdade, confiança, amor, etc. movem o mundo.

domingo, 27 de outubro de 2013

Maracujás

Passiflora molíssima
       Pertencente à família Passifloreaceae, o género Passiflora abarca cerca de 500 espécies. A maioria são do continente americano, todavia 20 são do continente asiático e australiano. Tipicamente são trepadeiras apresentam lindas flores e folhas trilobadas, serradas.
       Segundo Jardim & Menezes de Sequeira (2008), na ilha da Madeira existem 5 espécies, Passiflora molissima (Kunth) L.H. Bailey, que tornou-se numa espécie invasora,  Passiflora caerulea L., Passiflora ligularis A. Juss, Passiflora subpeltata Ortega, e Passiflora edulis Sims, todas elas com frutos comestíveis.
        Na ilha da Madeira, apenas a última era usada como medicinal, nomeadamente  para o estômago, intestinos e fígado (infusão da planta). Sendo ainda utilizada como eupéptica, que facilita a digestão, ou empregue contra o cancro de intestinos, devendo o indivíduo segundo a sabedoria popular, ingerir muitos frutos. 
Passiflora edulis, fonte: http://odandy.blogspot.pt
       A polpa do fruto, é ainda utilizada em sobremesas, sumos, poncha, etc. Cabe à imaginação de cada um usá-la, copiando receitas integrais de outrem, ausente de qualquer criatividade e seguindo meramente o  percurso comum, ou guiando-se  pela doce intuição, algumas vezes certa, outras vezes não, só o tempo dirá.
      Tal como na vida, a elaboração de uma boa sobremesa, neste caso um delicioso cheesecake requererá 500 g de paciência, 150 g de amor, 135 g de respeito, 5 folhas de compreensão, e por fim 3 /4  de intuição. Acrescente-se ainda atenção, para que ninguém mexa no creme alheio, não dar ouvidos a palpites  maliciosos e/ou perversamente angélicos,  perguntar a quem de direito. Colocar no forno durante 45m e deixar crescer. Por fim, acrescentamos a polpa de maracujá,  e confiando que as quantidades estejam acertadas, teremos um belo cheesecake, se não, ratificamos quantidades e tentamos de novo, em busca de algo que valha apena.
Receita: pela ordem referida - queijo fresco, açúcar, aproximadamente 3 ovos, gelatina, maracujás.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Gengibre

     Esta planta vivaz, Zingiber officinale Roscoe, segundo se sabe, é uma introdução recente na ilha da Madeira. Pertencente à família das Zingiberáceas é originária do Oriente, nomeadamente da Índia e China.
    Os primeiros registos do uso desta espécie são de Confúcio,  filósofo chinês (551 a.C. - 479 a.C.), que proferiu entre outras, as seguintes frases intemporais: "A essência do conhecimento consiste em aplicá-lo, uma vez possuído" ou ainda "Coloque a lealdade e a confiança acima de qualquer coisa; não receies corrigir teus erros".
    Através dos árabes, esta espécie chegou aos impérios grego e romano, que a usaram como condimentar e medicinal; mais tarde foi também apontada por Dioscórides e Plínio, que associaram o seu cultivo à Arábia e Somália. Foi mencionada também, no livro "Mil e Uma Noites" pelas suas supostas propriedades afrodisíacas, no século XIV na Inglaterra era já tão comum, como a pimenta.
     Atualmente, a Índia é o maior produtor desta planta; e estudos farmacológicos revelaram que possui propriedades digestivas, carminativas (impede a formação de gases no aparelho digestivo), sudoríficas e na Índia referem que tem efeitos afrodisíacos.
     Na ilha da Madeira, não são referidas utilizações pela população em registos mais antigos, hoje, em contexto urbano, concelho do Funchal, o rizoma é usado na culinária e em chá para gripe.
    No Verão, costumo usar a planta para preparar uma bebida refrescante, num jarro raspo parte do seu rizoma, adiciono sumo de limão (Citrus limon), uns raminhos de hortelã pimenta (Mentha piperita) e uma bebida gaseificada (água, 7Up, etc). No fim do dia, acompanha-me o pôr do sol, um copo meio cheio, a tranquilidade de uma escolha consciente, comprovada pelo tempo, e a certeza que só podemos ir até meio percurso, o restante, e óbvio, deverá ser realizado por outrem, sem véus ou tretas, seguindo apenas o que sente.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Bálsamo, babosa ou aloe

       Conhecida no Antigo Egipto à 2000 anos a.C, esta planta suculenta também chamada de lírio do deserto é  típica de ambientes xerófitos. Aloe vera (L.) Burm.f. é nativa de Africa e pertence à família das Liliaceae.
     Alexandre o Grande teve conhecimento desta planta, após ter conquistado o Egipto em 332 a.C., que seguindo o conselho de Aristóteles, mandou invadir a ilha de Socotorá, onde esta espécie crescia. Pretendia assim, assegurar "uma panaceia a mãos de semear" para o bravo soldado, ferido das duras e infrutíferas batalhas.
       Nos dias de hoje, o tempo, paciência e  genuíno prazer em cultivar e mimar a própria panaceia, escasseia, como tal as que restam são as facilmente adquiridas nos locais do costume. Estas são perfeitas para o superficial efeito pretendido, e amplamente difundido, todavia importa lembrar, que  "o verdadeiro bálsamo" reside nas células  do parênquima (mais interiores), donde é retirado o gel utilizado à milénios, e que deve ser claramente distinguido do látex (amarelo e altamente purgativo) proveniente de células mais exteriores, logo abaixo da parede da folha. Para isso, há que retirar os espinhos, observar para além das primeiras células e pretender extrair somente o gel, não ambos, só assim e por fim, obteremos o verdadeiro bálsamo. 

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Salva

      A salva ou Salvia officinalis L. é nativa do norte do mediterrâneo, todavia encontra-se cultivada por toda a Europa e América do Norte. Era conhecida como medicinal já na Antiga Roma, sendo mais tarde, século XVI, cultivada nos jardins dos mosteiros beneditinos.
       A salva caracteriza-se pelas suas folhas oblongas e pela inflorescência em verticilastro, as flores são típicas da família Labiatae de cor lilás a azul. Floresce no Outono e é conhecida pelo aroma forte, que lembra uma mistura de hortelã e cânfora, talvez por isso seja usada para perfurmar roupa e afastar as traças.
     Na ilha da Madeira, o chá da planta é usado como emenagogo, tónico, estomático, para aliviar bronquite, tosse e defluxos.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Dragoeiro

No século XV com o descobrimento do arquipélago da Madeira, novas espécies surgem e surpreendem os primeiros exploradores. Menciono por exemplo, o dragoeiro, Dracaena draco L.,   árvore de grande porte, de frutos amarelos e seiva "cor de sangue", que foi referida pela primeira vez nos diários de viagem de Luigi Cadamosto, navegador italiano, que em 1455,  descreve: "encontrei aí sangue de draco, que nasce em algumas arvóres. Extrai-se desta maneira: dão-se uns golpes de cutelo no pé da árvore e no ano seguinte, os ditos golpes deitam goma, que cosem e purificam e se faz o sangue." Aproximadamente, quinhentos anos após este registo, são mencionadas pelo Visconde do Porto da Cruz, Alfredo de Freitas Branco, algumas utilizações medicinais desta espécie.
A população madeirense, hábil na utilização dos seus recursos, passa a usar a resina depois de reduzida a pó e  mistura-a com aguardente, sendo ingerida em casos de contusões internas, denunciadas por sangue na boca. É também adicionada a feridas, de forma a estancar rapidamente o sangue ou ainda usada em contusões e pancadas.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Pessegueiro - inglês, Berbina

Aloysia citriodora Palau      
 
Introduzida na Europa no século XVIII por exploradores espanhóis, esta planta nativa da América Central e Sul, pertence à família das Verbenaceae. Arbusto que pode atingir os 3 m de altura, apresenta folhas lanceoladas, aproximadamente 3 por nó e uma panícula terminal com flores brancas.
Ambas, folhas e flores libertam um doce aroma a limão, em locais distantes deste minúsculo ponto no Atlântico, ilha da Madeira, é usada para aromatizar peixe, aves, doces e pudins, cá é ingerida como bebida refrescante no Verão ou chá quente e aconchegante no Inverno. Segundo relatos orais recentes e registos bibliográficos mais antigos, apresenta algumas aplicações medicinais, tais como calmante, sonorífera, em problemas cardíacos e gripais.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

     A Erva-gigante ou Gigante (Acanthus mollis) é uma planta originária do Mediterrâneo, introduzida na ilha da Madeira  à algum tempo. É espontânea em Portugal Continental e nos Açores, na ilha da Madeira está naturalizada, surgindo acima dos 700 mts na costa sul.
     Esta planta era utilizada como ornamental e medicinal. As suas utilizações medicinais eram essencialmente para uso externo, nomeadamente para a desinfeção e cicatrização de feridas onde eram aplicadas as folhas esmagadas. Para  furúnculos, segundo relatos orais e a pouca bibliografia existente, as folhas eram esmagadas e presas com uma faixa de tecido limpo durante algum tempo até que este rebentasse.
      Hoje, tal como muitas vezes reflito sobre as estranhas utilizações de várias ditas plantas medicinais, ressalvando no entanto, que algumas destas poderão de facto ter alguma aplicação e fundamento,  necessitando apenas de estudos científicos que as comprovem...
     Apesar de considerar, que estas inacreditáveis aplicações  são fruto na maior parte dos casos, do conhecimento passado através de gerações e que são  dignas de registo pois são elementos importantes da nossa cultura madeirense. Comove-me, sempre que leio ou oiço um relato destas utilizações "estranhas" pois estas refletem de forma crua e  triste as épocas de carência, de fraco desenvolvimento e muitas vezes a angústia de uma população, que tudo usava e experimentava para tentar curar as suas maleitas...