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terça-feira, 1 de setembro de 2026

Pessegueiro Inglês, Verbena, Berbina

 Terminando as férias de Verão iniciam-se os preparativos de retomo às aulas. Com azáfama dos dias para acalmar os espíritos mais irrequietos e domar as insónias dos pais preocupados com novas rotinas e tarefas, a população madeirense recorre a antídotos ancestrais, "chá" de erva doce, de camomila, tília ou erva cidreira. Entre estas plantas, e cada vez mais esquecido, surge o pessegueiro inglês, introduzido da América Central e do Sul. Pertencente à família Verbenaceae, Aloisia citriodora Pálau, é um arbusto com flores e folhas de aroma citrino e era mencionado nos registos de Alfredo Freitas Branco, Visconde do Porto da Cruz, no início do século passado, como tranquilizante. Em estudos etnobotânicos mais recentes, a infusão das folhas foi referida pela população rural para insónias, podendo ser adicionada erva cidreira (Melissa officinalis), assim como apontada para  o "corpo em geral" a mistura da planta com caninha (Cymbopogon citratus). Era utilizada ainda, como diurética. 

Sabias Que? Esta planta é conhecida em outras latitudes como Lúcia-lima ou Erva da Princesa. 

Fonte: Ramos, L. 2019. Plantas Aromáticas e Medicinais em Contexto Urbano - Saberes Madeirenses no Concelho do Funchal (Ilha da Madeira). Lisbon International Press, 139 pp.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Ensaião, Saião, Farrobo

Pelas escarpas e ravinas da Madeira, Porto Santo ou Deserta Grande podemos encontrar  o Aeonium glutinosum (Ait.) Webb et Berth, exemplar da família Crassulaceae. Uma planta subarbustiva até 1 m de altura, muito viscosa, com folhas obovado-espatuladas, suculentas, glabrescentes mas com margens ciliadas. As inflorescências são paniculadas, ramosas, com flores amarelo-douradas. 

Outrora, as folhas esmagadas deste endemismo eram aplicadas pelos camponeses em contusões, lesões e quedas. Na arte da pesca, esmagavam a casca da planta, esfregando-a nas linhas de cânhamo ou sissal para as tornar mais resistentes e duras. Para tingir as linhas de pesca e torná-las menos visíveis aos peixes era aplicada a infusão de folhas com urina. 

Sabias Que: Esta planta é parente do Aeonium glandulosum (Ait.) Webb et Berth, também endémico da Madeira, Porto Santo e Desertas. A aplicação externa das folhas esmagadas desta espécie eram também usadas pelos camponeses para lesões ou calos. 

Fontes: - Jardim, R., Francisco, D.2000. Flora Endémica da Madeira. Múchia Publicações. Funchal, 339 pp. - Ramos, L. 2019. Plantas Aromáticas e Medicinais em Contexto Urbano - Saberes Madeirenses no Concelho do Funchal (Ilha da Madeira). Lisbon Internacional Press. Lisboa, 139 pp.

Aeonium glutinosum

Aeonium glandulosum


terça-feira, 21 de julho de 2026

Massaroco


   O Homem à milénios que recolhe plantas do ambiente que o rodeia para curar as sua maleitas. O arquipélago da Madeira não foi exceção, local onde o camponês colheu plantas endémicas, introduzidas e autóctones, facto que torna desafiante descortinar a origem deste conjunto de conhecimentos. Ora, a utilização de plantas introduzidas deveu-se provavelmente, à importância da ilha no século XV, como centro geográfico para as travessias transatlânticas resultando na introdução de plantas e saberes de diferentes locais. E mais recentemente devido a fluxos migratórios para Venezuela, Brasil, África do Sul e Reino Unido com possíveis retornos, que proporcionou novos conhecimentos. Este pressuposto foi confirmado por estudos mais recentes, que comprovaram que as plantas medicinais mais usadas na ilha são as introduzidas. Mas, e as plantas autóctones e endémicas porque foram e são utilizadas? O seu uso pensa-se que deveu-se possivelmente à experimentação por tentativa e erro devido a similaridades morfológicas e/ou odoríficas com outras plantas já manuseadas. 
     Uma dessas plantas é o massaroco, Echium nervosum Dryand, endemismo da Madeira, Porto Santo e Desertas. Um arbusto perene da família Boraginaceae, que surge nos terrenos e escarpas rochosas no litoral da ilha entre os 0 e 300 m de altitude. Este pode atingir os 2 m de altura, apresenta folhas lanceoladas cinzento-esbranquiçadas e uma inflorescência paniculada, densa, com flores azul pálidas.  Ornamental foi também utilizada pelos camponeses para fins medicinais, em especial para padecimentos nervosos.           

Sabias Que? Este arbusto era outrora usado para embutidos. 

Fontes:

- Jardim, R., Francisco, D.2000. Flora Endémica da Madeira. Múchia Publicações. Funchal, 339 pp. - Ramos, L. 2019. Plantas Aromáticas e Medicinais em Contexto Urbano - Saberes Madeirenses no Concelho do Funchal (Ilha da Madeira). Lisbon Internacional Press. Lisboa, 139 pp.


terça-feira, 7 de julho de 2026

Cenoura da Rocha

 A cenoura arbórea ou nozelha são os nomes comuns mais utilizados no arquipélago. Da família Apiaceae, Monizia edulis Lowe, é uma herbácea endémica da Madeira e Desertas, muito rara, que cresce em escarpas rochosas até próximo aos 1500 m de altitude na Madeira e 330 m na Deserta Grande. Apresenta um caule simples, folhas triangulares, 2-4 penatissectas e inflorescências paniculadas de umbelas (20 a 25 raios) com flores esbranquiçadas a violáceas. Os seus frutos são oblongos a elipsoidais, pubescentes. 

Na época de fome, os seus talos subterrâneos eram colhidos e ingeridos crús ou cozidos pelos camponeses. Pelos mesmos, era feito ainda para fins medicinais, um "chá" para icterícia. 

Sabias Que? O género Monizia, constituído unicamente por esta espécie, é endémico da Madeira.

Fontes:

- Jardim, R., Francisco, D.2000. Flora Endémica da Madeira. Múchia Publicações. Funchal, 339 pp. - Ramos, L. 2019. Plantas Aromáticas e Medicinais em Contexto Urbano - Saberes Madeirenses no Concelho do Funchal (Ilha da Madeira). Lisbon Internacional Press. Lisboa, 139 pp.

quarta-feira, 17 de julho de 2024

Perpétua, Perpétua branca

   O Helichysum melaleucum Rchb. ex Holl é um arbusto pequeno com tomento denso, branco acinzentado. As folhas são lanceoladas com pecíolo curto e a inflorescência, um corimbo, com flores purpúreo-negras ou negras e brácteas do invólucro, brancas. Esta planta é um endemismo da Madeira, Porto Santo e Desertas e pertence à família das Asteraceae. 
    Na ilha da Madeira, o "chá" das flores e folhas, foi mencionado pelos camponeses para a tosse, bronquite e faringite. Assim como, a ingestão de um cálice da infusão em aguardente de Elaphoglossum semicylindricum (língua cervina), Peperomia galioides (canela branca), Chamaemelum nobile (macela), Lavandula angustifolia (alfazema) e mel de abelhas foi referido para cólicas menstruais.

Fontes: Jardim, R., Francisco, D. 2000. Flora Endémica da Madeira. 1.º Edição. Múchia Publicações, 339 pp.
Ramos, L. 2019. Plantas Aromáticas e Medicinais em Contexto Urbano - Saberes Madeirenses no Concelho do Funchal (Ilha da Madeira). Lisbon International Press, 139 pp.


terça-feira, 9 de julho de 2024

Espadana

    A espadana, Phormium tenax J.R. Forst. & G. Forst., pertence à família Agavaceae, e é introduzida da Austrália. Na ilha da Madeira, a seiva seca é diluída em aguardente, ingerida ou aplicada externamente, diz-se que cura tromboses. O sumo das folhas é mencionado para o cancro. O látex das folhas é referido ainda para colar envelopes e as fibras extraídas da planta são usadas para elaborar cordas e tecidos. 

Fonte: Ramos, L., 2019. Plantas Aromáticas e Medicinais em Contexto Urbano - Saberes Madeirenses no Concelho do Funchal (Ilha da Madeira). Lisbon International Press, 139 pp. 

quarta-feira, 3 de julho de 2024

Sumagre

   Esta planta, Rhus coriaria L., pertence à família das Anacardiaceae, o seu nome comum é sumagre ou semagre. Na ilha da Madeira foi introduzido da América Central e do Sul, é um arbusto ramoso até aos  3 m de altura de folha caduca com uma inflorescência densa, e rebentos densamente pubescentes. Pode ser encontrado em terrenos rochosos, nas bermas de caminhos até aos 700 mts de altitude, sendo utilizado para múltiplos fins. Em particular para dores de dentes, os gargarejos do "chá" das folhas. É ainda manuseado para tingir roupa e curtir couro. 

Fontes: Ramos, L. 2019. Plantas Aromáticas e Medicinais em Contexto Urbano: Saberes Madeirenses no Concelho do Funchal (Ilha da Madeira). Lisbon International Press. 139pp.
Vieira, R.M.S. 2002. Flora da Madeira - Plantas Vasculares Naturalizadas no Arquípelago da Madeira.  Boletim do Museu Municipal do Funchal (História Natural). Suplemento n.8. Departamento de Ciência da Câmara Municipal do Funchal. 281pp.


domingo, 28 de março de 2021

Domingo de Ramos

  
   O domingo anterior à Quaresma é o
 Domingo de Ramos, que comemora a entrada de Jesus em Jerusalém. Segundo os populares, ao surgir em portas de Jerusalém, Jesus levava nas mãos ramos de palmeira, Phoenix sp. 
    Neste dia, a população do arquipélago, antes do nascer do sol, recolhe e elabora um ramo de várias plantas, limoeiro (Citrus limon), arruda (Ruta chalepensis), laranjeira (Citrus aurentium), alecrim (Rosmarinus officinalis), entre outras,  que leva para ser benzido na igreja local. Em seguida, o ramo é colocado à sombra para secar e ser guardado, de modo a proteger a casa até ao ano seguinte. Segundo os populares, em situações de mau-estar inexplicado, muitas vezes associado ao mau-olhado deverá ser tomado um "chá" elaborado com um pouco das ervas do ramo benzido. 

Sabias Que? 
      Neste dia, em zonas rurais, a população recolhe ramos de palmeira (Phoenix sp.) e coloca na entrada da casa, relembrando a entrada do Senhor em Jerusalém.  

domingo, 19 de julho de 2020

Aveleira, avelãzeira

       Árvore arbustiva que atinge  a maturidade produtiva aos 10 anos e termina o ciclo aos 60 anos. Pertence à família Betulaceae, as aveleiras selvagens remontam o Império Bizantino, mas essa região nunca tinha apostado na cultura em grande escala  de espécies domesticadas. 
A árvore de forma espontânea crescia na zona mediterrânica, e diz-se que extensos bosques com inúmeras aveleiras frutificavam no sopé do Vesúvio e nos arredores da cidade de Avella. Todavia, a descoberta da avelã já vinha dos gregos que a chamavam de nux ponticus devido às primeiras aveleiras serem provenientes da Ásia Menor. 
Dioscórides e Plínio o Velho relatam nas suas obras os vários usos dos gregos e romanos, nomeadamente, utilizações medicinais para curar problemas de estomâgo, tosse e queda de cabelo. 
A província italiana e  cidade Avella parece estar na origem do nome botânico Coryllus avellana. A palavra grega kory significa "elmo" foi buscar a semelhança da casca oblonga da avelã, parecida com um capacete que serviu para inspirar o nome corylus. 

Sabias que?
         Em Roma, servia de digestivo após o jantar a acompanhar o vinho. Fazia-se farinha e óleo de avelãs que era usado em essências perfumantes. Nos casamentos romanos, há noite acendiam-se tochas feitas de pau de aveleiras para os nubentes, que simbolizam fertilidade e contribuíam para o sucesso do matrimónio. 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Arundo donax

    Ao longo dos tempos, cada cultura favorece certos aspetos do seu ambiente, e certas formas práticas e simbólicas de se relacionar com o mesmo. Na ilha da Madeira, a utilização de plantas com fins aromáticos, medicinais e associada a tradições está ainda bem presente, sejam espécies endémicas, nativas ou introduzidas. A  cana vieira, espécie introduzida da Asia Central e Meridional, propaga-se por terrenos incultos, baldios ou bermas de terrenos agrícolas, pertencente à família Poaceae tornou-se infestante. Contudo, a população dá-lhe também utilidade, os rebentos desta monocotiledónea e  apenas os que "nunca viram o mar", são utilizados em infusões do trato urinário e dores menstruais, ou ainda para a primeira maleita, em decocções Parietaria  judaica, Polygonum aviculare ou de Lavatera cretica e Linum usitatissimum.

domingo, 5 de junho de 2016

Verbena bonariensis

   Planta introduzida, já naturalizada, originária do continente americano e pertencente à família verbenaceae. Pode ser encontrada, por toda a costa sul da ilha, em terrenos incultos, terras pedregosas e abandonadas, etc.. Robusta e alta, é uma erva de folhas estreitas e longas, de margens serradas com inflorescências de cor lilás. Apresenta vários nomes  comuns, tais como urgebão ou jarvão, sendo utilizada pela população, como planta ornamental e/ou medicinal, nomeadamente, como diurética e para problemas de rins e fígado.

Silva Vieira, R.M.: 2002. Flora da Madeira - Plantas Vasculares Naturalizadas no Arquipélago da Madeira. Museu Municipal do Funchal - Historia Natural. Funchal.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Linum usitatissimum

O linho é originário do Médio Oriente, pertencente à família Linaceae, cujo cultivo iniciou-se na Europa, possivelmente à 3 mil anos para extração das fibras e do óleo das sementes para a confeção de alimentos.
  Na ilha da Madeira, segundo Silva Vieira (2002), a sua plantação fez-se desde o início do povoamento, sobretudo no norte e sudoeste da ilha, tornando-se naturalizada em terrenos incultos de baixa e média altitude.  Outrora, utilizada pela população como planta têxtil e medicinal,  nomeadamente para constipações (infusão); e ainda para asma, bronquite ou dores menstruais, através da aplicação de uma cataplasma de sementes colocada sobre o peito ou ventre. Atualmente, esta espécie é pouco cultivada, devido ao processo moroso e árduo, amplamente designado na ilha por "tormentos do linho", necessário para o fabrico do "linho da terra", posteriormente empregue para peças de vestuário ou decorativas (e.g. toalhas bordadas).

Silva Vieira, R.M.: 2002. Flora da Madeira - Plantas Vasculares Naturalizadas no Arquipélago da Madeira. Museu Municipal do Funchal - Historia Natural. Funchal.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Plantas Aromáticas e Medicinais (Ilha da Madeira)


   "Na ilha da Madeira cerca de ¼ dos taxa têm aplicações aromáticas e medicinais, bem como são usados na veterinária e em superstições/rituais. As famílias mais utilizadas são as Poaceae, Labiatae, Asteraceae, seguindo-se das Rosaceae; por ordem de utilização, encontramos as plantas autóctones, introduzidas, cultivares, e por fim as endémicas. Das plantas introduzidas, a maioria é proveniente da Europa, América Central e do Sul, e Ásia.
    Relativamente às plantas medicinais, verifica-se através de vários estudos realizados na ilha, que a maioria das mesmas era utilizada para uso interno, sendo os principais modos de preparação, o “chá” (termo utilizado para as infusões ou decoções), seguidamente, da “infusão” (macerações alcoólicas) de misturas de uma ou mais plantas em aguardente de borra de vinho ou de cana-de-açúcar, sumos, e ainda ingestão direta de partes de plantas (e.g. fruto). Para uso externo, as plantas eram aplicadas através de cataplasmas, lavagens, aplicação direta do látex, vapores e “fumos” (e.g. queima de folhas). Em geral, as partes mais usadas são as folhas, raminhos e frutos, que quando possível, eram utilizadas em estado fresco.
     As espécies medicinais e aromáticas mais referidas para a ilha são: o Laurus novocanariensis  (loureiro); Rosmarinus officinalis L. (alecrim); Senecio serpens  (bálsamo de canudo); entre outras.
 
Fonte: Ramos, L.; Menezes de Sequeira, M. (2015). Plantas Aromáticas e Medicinais (Ilha da Madeira). Disponível em: http://aprenderamadeira.net/plantas-aromaticas-e-medicinais-na-ilha-da-madeira/

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Os citrinos

    A família Rutaceae apresenta 160 géneros, nestes estão incluídos os citrinos, primos da arruda (Ruta sp.). O género Citrus sp. é proveniente do sudoeste da Ásia, com  cerca de 16 espécies, que nos concedem as laranjas doces (Citrus sinensis) ou amargas (C. aurentium), as tangerinas (C. reticulata), o cidrão (C. medica), as limas (C. aurantifolia) ou limões (C. limon), entre outras. Considerados um dos géneros mais importantes do mundo, os citrinos surgem pela primeira vez, em registos históricos persas em 300 A.c. Na Europa, são introduzidos na Época dos Descobrimentos, sendo posteriormente levados para o "Novo Continente" pelos espanhóis. 
    O limão é o citrino com maior número de aplicações médicas comprovadas cientificamente. Na ilha da Madeira, o conhecimento popular menciona-o para várias maleitas desde gripe (infusão da casca), a garganta inflamada (rodelas polvilhadas com açúcar e ingeridas), a varíola (esfregar o sumo sobre área afectada), a disenteria (ingestão de sumo com canela em pó, duas colheres de sopa de vinagre e açucar), etc... Para além, de todos estes  usos é utilizado na culinária ou ainda associado a tradições / superstições. 
   De todos citrinos, o limão e a laranja, são os mais utilizo, esta última como fonte diária de vitamina C e o limão, como matéria prima para um sumo refrescante ou para uma infusão nos dias quentes ou frios, respectivamente. Assim sendo, e aproveitando o resquício das férias, após a praia e antes do jantar, faço um sumo, dois limões, duas a três fatias de abacaxi, duas folhas de hortelã, não esquecendo a água... dois cubos de gelo, ideal para refrescar. Recordo-me então, de um velho ditado: "quando a vida te dá limões, faz limonada", seguro no copo e dirijo-me à varanda, levando tranquilamente, um pequeno livro de bolso das edições Asa, que muito prezo e me acompanha: "Histórias de Mulheres"...

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Santos Populares

Malfurada da rocha -
Hypericum perfuratum
  No mês de junho ou no mês dos Santos Populares, são comemorados com mais fervor, o Santo António, São João e o São Pedro, dias repletos de tradições e superstições muito curiosas, muitas das quais associadas a plantas.
  Na ilha da Madeira, as plantas recolhidas no dia de São João, antes do amanhecer são consideradas benzidas, segundo a sabedoria popular: “todas as plantas são bentas na manhã de S. João, só a malfurada da rocha, pelos seus pecados, não.”
  Assim, na véspera  deste dia são apanhados e colocados nas janelas e portas para apanhar o "sereno", os ramos de murta (Myrtus communis), alecrim (Rosmarinus officinalis), loureiro (Laurus novocanariensis), oliveira (Olea madeirensis) ou buxo (Buxus sempervirens), sendo que estes ficam "bentos", e a casa fica protegida. Nas zonas rurais eram colocados ainda, ramos nos palheiros, chiqueiros e/ou galinheiros para que nada de "mau" entrasse e os animais ficassem protegidos. As fontes, também não escapavam a esta tradição, pois tal como hoje, eram enfeitadas com flores, ramos de "louro bento" (L. novocanariensis), canas vieiras (Arundo donax), buxo (B. sempervirens), entre outros, para que a fonte/água ficasse benzida.
  Neste dia, a gastronomia também é típica, o madeirense delicia-se com o atum de escabeche (mistura com azeite, vinagre, cebola, alho e pimentão), as semilhas (Solanum tuberosum), o feijão fresco e as maçarocas cozidas, acompanhado por um cálice de vinho caseiro. E se seguir a tradição, termina o dia com o mergulho no mar sob as estrelas... pois segundo sabedoria popular, limpa a alma e protege-nos de todos os males...até ao ano seguinte. Na dúvida..., mergulhamos e aproveitamos breves momentos de calma, puro relaxamento após um dia de labuta, entre a temperatura amena das águas, a frescura da brisa e o som das ondas.
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quinta-feira, 15 de maio de 2014

Tremoceiro

       O mês de maio, tem o seu nome devido a Maia, de acordo com a mitologia grega, uma de 7 irmãs, filhas de Atlas e Plêione, que para que escapassem ao gigante Órion, Zeus transformou-as num aglomerado de estrelas, as Plêiades, incluídas na constelação de Touro.
      Por cá, ilha da Madeira, mês de maio é mês de sol, começa a cheirar a Verão, iniciam-se os banhos de mar, a leitura na praia acompanhada por uma Coral (mini) e alguns tremoços, temperados com alho (Alllium sativum), salsa (Petrosilium crispum) e pimentão (Capsicum annum).
     Estas apetecíveis sementes, ricas em vitamina E e B pertencem à espécie Lupinus albus L., família Fabaceae, onde estão incluídas as ervilhas, o feijão, as lentilhas, entre outras. A planta de onde crescem é originária da Península Balcânica, podendo atingir os 60 cm, as folhas apresentam folíolos oblongos, obtusos a arredondados no ápice com pêlos na página inferior. A sua corola é branca, tingida de azul e a vagem atinge, aproximadamente, 50 mm de comprido.
     Na Madeira, tal como noutras partes do mundo, o tremoceiro é usado na agricultura para ajudar a enriquecer o solo com azoto, preparando-o para receber novas plantas e simultaneamente ofertando a população com tremoços, antigamente só comidos na época da Páscoa. Estes, em algumas zonais rurais da ilha, tinham ainda aplicações medicinais e veterinárias, moídos serviam de cataplasmas em inflamações; e a sua decoção usada para remover piolhos de cabras e aves. Refletindo sobre a última utilização, questiono-me, este uso não teria sido uma boa alternativa para novas utilizações.
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quinta-feira, 10 de abril de 2014

Arruda

   A família das Rutaceae é um dos maiores grupos das Angiospérmicas (plantas com flor), onde estão incluídos por exemplo, os citrinos e a arruda.
    Esta última, Ruta chalepensis, é nativa da região mediterrânica, sendo cultivada e usada como medicinal e aromática desde a antiga Grécia. Actualmente, em alguns países, é adicionada às sopas, saladas ou pão devido ao seu forte paladar e aroma. Apresenta um porte herbáceo atingindo os 70 cm, folhas penatissectas, flores de cor verde amarelada possuindo pétalas fimbriadas, e cápsulas com 4-5 lóbulos.
    Na ilha da Madeira, segundo a sabedoria popular, é usada para vários fins, dores de cabeça, dentes, cólicas menstruais e problemas intestinais. Para tromboses, é adicionada ao chá, a noz moscada (Myristica fragrans) ou ingerido um "botão" (cápsula) da planta durante nove dias consecutivos; ou em casos de apoplexia (perda súbita de consciência), eram usados os fumos provenientes das brasas com arruda, losna (Artemisia argentea), folhas de louro (Laurus novocanariensis), e alecrim (Rosmarinus officinalis).  
   Mais interessantes são os usos associados às superstições, nomeadamente para protecção do mau olhado (inveja), pois ainda hoje em determinadas zonas rurais e em algumas freguesias do Funchal, continua-se a plantar à entrada das casas, a arruda e/ou alecrim para afastar este "mal"...  De acordo com os " entendidos", o mau olhado é dado pelo invejoso(a) provocando muitas desgraças ao cobiçado(a), incluindo a sensação de mal estar, tonturas, falta de energia e apetite; assim sendo, para evitar estes casos deve-se colocar no bolso um raminho de alecrim ou ainda, ingerir na manhã de São João, em jejum, um "botão" de arruda com 5 "bicos".
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domingo, 2 de março de 2014

Feiteira

   Neste pequeno universo insular, 760 km2 de orografia íngreme e agreste, outrora de vegetação exuberante, hoje repleto de frondosas acácias (Acacia sp.), cativantes pinheiros (Pinus sp.), elegantes eucaliptos (Eucalyptus globulus), e esbeltas canas vieiras (Arundo donax), que por enquanto, iludem a visão do turista mais distraído ou míope, enredos cómicos elaboram-se e vendem-se.
   Na nossa região, tal como a feiteira [Pteridium aquilinum (L.) Kuhn], pteridófita muito comum na ilha, o espírito de competição abunda, o espírito de camaradagem e partilha dilui-se. A inexistência de partilha de informação ou conhecimento é real e concreta, ensina-se, imprime-se e perpetua-se através de gerações. A mentalidade do ilhéu revela-se por vezes, pequena e fechada, pouco fazendo para mudar, excepto raras excepções. No entanto, espera-se assim, que tal como a feiteira (família Hypolepidaceae), de rizomas extensos, frondes triangulares a ovadas e pêlos acastanhados, esta forma de estar no mundo, restrinja-se às serras e terrenos incultos.
   Mas o pouco de uns, torna-se o muito de alguns, e o anseio de reconhecimento é grande, sanguinariamente desejado, intestinalmente concentrado. Inventam-se histórias, criam-se boatos, mas até para isso há bom remédio, visto que a época é de penúria para alguns, semelhante a outros tempos, em que triturava-se o rizoma da feiteira para fazer papas e pão para saciar a fome, sugere-se para o ego, a pasta de celulose reciclada...
     Por aqui, mantém-se uma consciência limpa, o sentimento de tranquilidade e de esperança por novos tempos, com mais frontalidade, franqueza e partilha.
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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Eucalipto

    O eucalipto, Eucalyptus globulus Labill pertence à família Myrtaceae, onde ainda estão incluídas, a pitangueira (Eugenia uniflora), a goiabeira (Psidium guajava), a murta (Myrtus communis), entre outras. O género Eucalyptus sp.  é  nativo da Tansmânia, Austrália e possui cerca de 400 espécies.
    O continente australiano, reconhecendo a importância do óleo essencial de  E. globulus, iniciou a sua comercialização no ano de 1852, para fins medicinais. Atualmente, sabe-se que o óleo essencial possui cineol ou eucaliptol, composto com propriedades antissépticas, expetorantes, broncodilatadoras, febrífugas e sudoríficas.
    Na ilha da Madeira, esta espécie foi introduzida à cerca de 200 anos, tornando-se muito frequente entre os 400 e  1200 mts de altitude, sendo amplamente cultivada para combustível, todavia, hoje tornou-se numa planta invasora.
   Segundo a população madeirense, o "chá" das folhas é usado para problemas respiratórios, constipações, bronquite, diabetes e para o sistema nervoso, que deverá ser usado com cuidado pois em excesso será perigoso. Ainda para as vias respiratórias, são usadas as inalações e banhos; e para as pernas "pesadas", as massagens com infusão dos frutos em álcool , sendo os últimos, apanhados e colocados nas gavetas e armários das roupas para evitar a traça.
   O cheiro das folhas e frutos é de tal forma intenso, que relembra-me as gripes e constipações de infância, bem como a enorme panela com decocção de folhas sobre a mesa da cozinha, onde enfiava o nariz com a cabeça coberta por uma toalha. Ao lado, acompanhavam-me uma mãe zangada que alertava para os perigos de correr à chuva e os sobrinhos que se riam; mas visto que era importante prevenir problemas semelhantes, a  malta da risota acabava sempre por ter o mesmo destino... o pijama, a toalha e a panela... :)
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sábado, 4 de janeiro de 2014

Abacateiro, Pereira - Abacate

     O abacateiro, Persea americana Mill., irmão do vinhático Persa indica (L.) Spreng., pertence à família Lauraceae, da qual fazem também parte, o til, barbuzano e o loureiro, os principais representantes da floresta Laurissilva.
  É uma das mais antigas espécies, mesoamericanas, domesticadas. O fruto, abacate (nome derivado de ahuacatl, "testículo" em Nahuat),   é rico principalmente em vitamina E e  potássio, possuindo ainda as vitaminas B6 e C. Hoje, pelo que sei, existem três variedades que resultaram do processo de domesticação por diferentes grupos locais e adaptações a distintos climas. A Persea americana var. drymifolia (abacate do México) com frutos pequenos, epicarpo fino, preto arroxeado;  a  var. guatemalensis, (abacate da Guatemala) de epicarpo rugoso; e a var. americana adaptada a regiões mais baixas dos trópicos, mais húmidas, com frutos arredondados a periformes, mesocarpo carnudo e epicarpo fino.
       Na ilha da Madeira, esta espécie pode atingir os 20 metros de altura, tendo sido introduzida para fins alimentares. Todavia, a população também a usa como medicinal, nomeadamente, a infusão das folhas para dores de cabeça, estômago, reumatismo, fígado e rins, sendo ainda empregue em cistites.     
       Grandes, médias, pequenas, lisas ou rugosas consoante a variedade, as pêras-abacates são um dos frutos mais apreciados na ilha da Madeira. Com açúcar, sal ou mel de abelhas, na salada de alface, com camarão, no pão ou saboreada por si só, implica apenas que saibamos o que precisamos, que muitas vezes, nem é o que gostamos...
No meu caso, gosto de pêra-abacates doces e amanteigadas, ricas em vitamina E, simples, sem confusões ou variedades à mistura,  ideais para iniciar bem o dia, afagando o estômago e a alma...