quinta-feira, 4 de abril de 2019

O Chá e os Portugueses

    A planta da família Theaceae, Camellia sinensis, é originária do sudoeste asiático. Esta planta, segundo a lenda começou a ser ingerida em água a ferver na China (II século a.C), quando uma folha da árvore caiu numa chávena de água a ferver do imperador Chang Nung. Contudo a sua utilização, pensa-se, ter iniciado antes com a ingestão de folhas, como "iguaria vegetal", num modo de preparação  similar aos "picles". Os monges budistas, mais tarde adoptaram o chá, sobretudo porque os ajudavam a permanecer despertos durante longas horas de meditação. No século V o chá chegou ao Japão na rota missionária vinda da Coreia, e no final do século VI, o consumo de chá generalizou-se no oriente asiático.

Mais tarde, na época do Descobrimentos, a planta saiu do oriente para o velho continente, Europa e mais tarde para o Novo Mundo. Os portugueses, tiveram um importante papel na sua dispersão, reza a lenda que a introdução do chá na Grã-Bretanha deve-se à rainha D. Catarina de Bragança aquando do seu casamento com um rei inglês. 


segunda-feira, 1 de abril de 2019

O Cacau


    A planta do cacau (Theobromma cacao) é originária da região amazónica da América do Sul, sendo já conhecida pelos povos maias, como indicam os antigos hieróglifos encontrados na região. "Ka-Ka-Wa" (glifo maia de onde derivou a palavra  "cacau"), continha formas próprias de cultivo, secagem e de moagem, podendo ainda ser misturada com baunilha (Vanilla planifolia), mel de abelhas ou ainda malaguetas (Piper sp.). Misturada com água era uma bebida estimulante de delicioso odor e sabor, que os primeiros europeus julgavam ser uma espécie de "vinho". Servia de moeda de troca na América Central e do Sul, um bem precioso, pois a aristocracia mesoamericana monopolizava o seu consumo. 
Esta planta, cacaueiro, chegou  à Europa de forma reiterada através dos séculos, primeiro com Cristovão Colombo no século XV, mais tarde com Hernás Cortés século XVI, sendo também consumida pela aristocracia europeia, e mais tarde popularizada pelos grandes centros europeus da época, nas casas de chá e chocolate. No fim do século XVIII, o chocolate quente já era bastante preterido ao chá e café, como bebida, sendo mais tarde convertida em barras sólidas pelos ingleses e transformadas devido a adição de diferentes plantas, açúcar (Saccharum offinarum), frutos secos (amendoim -Arachis hypogaea; amendôa- Prunus dulcis), ou menta (Mentha sp.), num dos alimentos mais cobiçados e adorados do mundo... UAUU, Cacau...

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Dia de São Martinho

O Dia de São Martinho é comemorado um pouco por toda a Europa, mas as tradições variam. Em Portugal, comemora-se na véspera ou no próprio dia, fazendo-se magustos e elaborando as refeições típicas da época, na ilha da Madeira degustam-se as semilhas (Solanum tuberosum) com  batata doce (Ipomeas batatas), couve (Brassica oleracea) ou outros legumes cozidos, o bacalhau assado ou atum de escabeche, e nas adegas prova-se o vinho, segundo o ditado popular: "em dia de São Martinho vamos à adega e prova-se o vinho". É uma antiga tradição, que tal como no Dia de Todos os Santos, acendiam-se fogueiras e assavam-se castanhas (Castanea sativa), sendo também motivo para mais um convívio familiar e social. 
Segundo a lenda, num dia de Inverno e de chuva (III-IV d.C.), um soldado que seguia o seu caminho, encontrou um pobre a tremer de frio, sem nada que lhe pudesse dar, empenhou a sua espada e cortou a capa que usava a meio, cobrindo-o com uma das partes. Mais à frente, encontrou mais um mendigo, com quem partilhou a outra parte. Sem nada que o protege-se do frio, São Martinho, continuou a sua viagem, todavia, rege a lenda que as nuvens abriram-se e o sol surgiu, prologando-se o bom tempo por vários dias. Surge assim, segundo os populares, a expressão: o verão de São Martinho.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Druidismo - O Ciclo do Ano

Desde o Iluminismo, que a nossa cultura tem vindo a projectar a mensagem de que a vida é linear, de que nascemos, envelhecemos, morremos e tudo acaba. A antiga mensagem do carácter cíclico da vida, enquanto ciclo ou espiral foi substituída pelo símbolo de uma linha a direito: uma mundo-visão masculina, linear e científica Carr-Gomm (2011). Segundo o autor, Carr-Gomm (2011), os resultados provocados por esta mudança na nossa consciência colectiva, de uma concepção circular da vida para uma concepção linear foi o desligar das "almas", em relação a uma das fontes espirituais mais veneradas: a Natureza. 
No Druidismo, a visão de Divindade era de algo omnipresente, manifestando-se em diferentes formas, estrelas, pedras, animais, árvores, etc... Para a sua  celebração, Natureza, cumprimos um conjunto de oito cerimónias ao longo do ano (cada uma delas concebida para nos ajudar a sintonizarmo-nos com o ritmo da respectiva estação do ano e com a vida na Terra). Neste sentido, a vida do Homem é um ciclo:  “nascemos vivemos a infância, a juventude, envelhecemos e mais tarde morremos”, conceito representado por um círculo, onde no seu interior está a sua alma, a sua identidade. O mundo, estações do ano são claramente cíclicas: sucedem-se umas às outras, por isso, podemos dispo-las num círculo do ano. O mesmo acontece com os dias: cada dia nasce de madrugada, atinge o seu ponto alto ao meio-dia e depois começa a escurecer, dando lugar à noite, altura em que morre, renascendo depois na madrugada seguinte (Carr-Gomm, 2011). 
      “O círculo do ano e o círculo do dia têm afinidades: o Inverno é como a morte da noite, quando tudo fica quieto. A Primavera é como o nascer do dia, quando os pássaros acordam e louvam o céu. O Verão é como o meio-dia, uma altura de calor máximo e em que o crescimento é maior. E o Outono é como o fim de tarde pois até mesmo, as suas cores se parecem com as do pôr-do-sol. Temos assim, os dois ciclos da Terra em sintonia (Carr-Gomm, 2011)."
Existe ainda, uma ligação entre o nosso ciclo e o ciclo da Terra. No nosso ciclo há um nascimento, morte e renascimento. No ciclo da Terra, no solstício de Inverno ocorre a noite mais longa; no lado oposto, no solstício de Verão, onde está a sua máxima força é a altura do ano com o dia mais longo. A primavera corresponde à época da tua infância, o Verão à fase mais jovem da idade adulta, o Outono à tua fase madura e o Inverno à tua morte. E no centro da roda da tua vida está a tua alma, tal como no centro da roda da Terra está o sol. Daí o sol, ser um elemento reverenciado no Druidismo.

Carr-Gomm, P., 2011, Os Mistérios dos Druídas, Editora Zéfiro, Lisboa.