quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Solstício de Inverno

    O solstício de Inverno é comemorado num festival no dia 21 de Dezembro. No país de Gales, este festival é conhecido como Alban Arthen, luz do Inverno, uma versão poética que relaciona o Solstício à lenda do rei Arcturus, o guardião da estrela polar, umas das estrelas mais brilhantes do hemisfério norte. Neste período, os dias tornam-se mais curtos, as noites frias e longas, a escuridão prevalece. Na noite mais longa do ano, noite do Solstício de Inverno, os antigos pagãos recusavam-se a acreditar na morte do sol. 
    Em vez disso, juntavam-se para celebrar a luz e a natureza adormecida, contudo, as tradições dos antigos povos pagãos persistem ainda hoje, em pequenos rituais, tais como no acender das luzes de Natal, na aplicação de decorações natalícias nas habitações, no som do crepitar da lenha nas lareiras, e nos cheiros típicos a ramos de pinheiro ou a musgo, não esquecendo a confecção de gastronomia típica, bolos de frutas cristalizadas, bebidas quentes de vinho adocicado com especiarias ou cacau, etc... que relembram costumes de civilizações antigas. 

terça-feira, 22 de agosto de 2017

O Chá de Segurelha

          Os tempos eram difíceis e árduos, os dias repetiam-se com o único objetivo de colocar comida sobre a mesa. Da terra saíam as hortaliças: batata doce, semilhas, feijão, entre outras; da rocha: os alhos, cenouras e azedas, e de perto dos ribeiros: o inhame, galhotas, e o agrião. No rosto, as linhas revelam o passar do tempo, conferindo uma estranha rudeza, que contrasta com um olhar profundo, doce, estranhamente doloroso para quem o vê pois é claramente sofredor. O dia começa cedo para as jovens mulheres, as semilhas do jantar do dia anterior, e uma chávena de café saciam a fome, as galinhas e porcos têm de ser alimentados, as camas feitas e o chão varrido. No lume é colocado a panela para o almoço, semilhas e feijão, que será embrulhada numa toalha, juntamente com pequenos pêros e um pão que alberguerá a mistura de vinho diluído com açúcar e raspas de limão. O dia será longo e só terminará após o último socalco de terra ser revirado para receber o mato seco e a feiteira, que servirá de cama para a batata germinar e crescer. Pelo caminho, colhe-se ainda erva para que no dia seguinte seja alimentada a vaca, entre a exaustão de um dia de trabalho, a terra e o suor que lhe desce o rosto, as mãos enrugadas e morenas trabalham rapidamente pois o jantar ainda terá de ser feito, e a água de rega chegará tarde. As costas doem, e o peso da barriga custa, os nove meses estão quase no fim, mas a lua está ainda em quarto minguante, e a erva terá de ser levada até casa. Mais tarde, com o jantar adiantado, uma lanterna é acesa, o caminho até à cultura ainda é longo e a claridade é pouca, após algumas horas com os pés gelados e molhados, o trilitar dos dentes sobrepõem-se ao vento, que move as folhas das árvores próximas, as dores tornam-se insuportáveis, mas a rega ainda não terminou. A custo e gelada até à alma, percorre o caminho até casa e lembra-se enquanto encerra os dentes, que a água terá ainda de ser aquecida e a tesoura esterilizada. De súbito, e ao mesmo tempo que avista a casa, um fluxo de água quente desce pelas pernas que tremem, chegou a hora, pensa. Ela nasce, pequena e rosada, gritando em plenos pulmões. Após ser limpa com paninhos de linho, a mãe de olhar terno, embrulha-a numa pequena manta e coloca-a ao seu lado por breves minutos. Logo, os lençóis da cama são mudados, a higiene feita e a roupa trocada, o jantar terminado e o chá tomado, antes de aconchegar-se junto à filha onde acaba por adormecer exausta, esperando pelo marido, que acabará por chegar... 
Chá - decocção de segurelha, Thymus vulgaris, para promover contrações e a saída da placenta. 

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Documentários - Plantas (Arquipélago da Madeira)

    Para as férias, e para quem gosta de plantas, deixo aqui uma sugestão, a visualização de "Plantas Com História", conjunto de vários documentários de 10 minutos realizados pela RTP Madeira, em 2016, tendo como principal orador o geógrafo Prof. Dr. Raimundo Quintal. Com vários temas, relativos diferentes espécies de plantas, o investigador menciona gimnospérmicas e angiospérmicas, endémicas, introduzidas e autóctones oriundas dos mais diferentes pontos do mundo. 
     Desfrutem!

sábado, 13 de maio de 2017

Águas mansas das levadas                                  Levadas da minha aldeia                       
tal como as ribeiras,                                            galgando de monte em monte                      
que em vindo o Inverno,                                     enchei de seiva esses vales,
inundam casas vinhedos e leiras.                       cantei nas pedras da fonte,  
(...)
Essa voz suave encerra,                                       As aves já aprenderam,
enigma doce e profundo.                                     o vosso lindo cantar,
cantais promessas dos céus                                  cantam ensinando às flores, 
ou chorais males do mundo?                              como se deve falar.

À vossa beira se espelham                                 A serra já não se lembra,
hortênsias, musgos e flores,                              das gerações que passaram,
velhos loureiros murmuram                             e a vida vai e renova-se,
loucas histórias de amores.                               e as águas nunca pararam.
(...)
Tudo seria mais triste,                                        
na quietude da serra,          
se a vossa voz não ouvisse                                 
como a própria voz da terra.                              
(...)

A. F. Gomes. Baladas das Levadas (1998)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017


Talvez fosse por Deus, o autor da Natureza,
esta ilha da Madeira, ser da nação portuguesa.
(...)
Tremendo os descobridores pela massa florestal,
não houvesse animais bravos, 
que pudessem causar mal, 
largaram fogo na ilha por sete anos agitados,
mas vestígios de tais feras, 
não consta ser encontrado.
Mais tarde arrependeram-se, depois da terra  abrazada,                                    
pois a madeira mais fina, até então encontrada,
estava toda em carvão, uma imensa derrocada.
Ficou-lhe o nome Madeira, do seu tempo florestal,
e também flor do oceano, a jóia de Portugal.

Manuel Gonçalves (séc. XX)
Fonte: Vieira, A. 1998. Do Éden à Arca de Noé. Secretaria Regional do Turismo e Cultura, CEHA.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017


Minha Terra,
não te canto pelas tuas belezas, nem pelas tuas flores,
nem por esse verde impossível dos teus montes,
nem pelo canto cristalino das tuas fontes,
nem pelo azul puríssimo do céu e do mar
eu te respeito só.
Venero sim, os meus antepassados
que num sonho de há quinhentos anos,
lograram-se ao criar-te num esforço sobrehumano
e desbravar o mato, quebrar a pedra,
domar o mar, os ventos e a adversidade.
Gastar o sangue, os anos e vontade,
a construir poios, a aproveitar a terra,
até onde os pisos altaneiros, as nuvens apunhalam
e a desafiar as bocarras ciolópicas e as gargantas da montanha
dominar a torrente de frágua em frágua,
para as suas lágrimas, o seu suor e sua água,
pudesse hoje existir, (...) Madeira.
                                                                                                                 Bom Ano!
Secundino Teixeira (séc. XX) 
Fonte: Vieira, A. 1998. Do Éden à Arca de NóeSecretaria Regional do Turismo e Cultura - CEHA