quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Eucalipto

    O eucalipto, Eucalyptus globulus Labill pertence à família Myrtaceae, onde ainda estão incluídas, a pitangueira (Eugenia uniflora), a goiabeira (Psidium guajava), a murta (Myrtus communis), entre outras. O género Eucalyptus sp.  é  nativo da Tansmânia, Austrália e possui cerca de 400 espécies.
    O continente australiano, reconhecendo a importância do óleo essencial de  E. globulus, iniciou a sua comercialização no ano de 1852, para fins medicinais. Atualmente, sabe-se que o óleo essencial possui cineol ou eucaliptol, composto com propriedades antissépticas, expetorantes, broncodilatadoras, febrífugas e sudoríficas.
    Na ilha da Madeira, esta espécie foi introduzida à cerca de 200 anos, tornando-se muito frequente entre os 400 e  1200 mts de altitude, sendo amplamente cultivada para combustível, todavia, hoje tornou-se numa planta invasora.
   Segundo a população madeirense, o "chá" das folhas é usado para problemas respiratórios, constipações, bronquite, diabetes e para o sistema nervoso, que deverá ser usado com cuidado pois em excesso será perigoso. Ainda para as vias respiratórias, são usadas as inalações e banhos; e para as pernas "pesadas", as massagens com infusão dos frutos em álcool , sendo os últimos, apanhados e colocados nas gavetas e armários das roupas para evitar a traça.
   O cheiro das folhas e frutos é de tal forma intenso, que relembra-me as gripes e constipações de infância, bem como a enorme panela com decocção de folhas sobre a mesa da cozinha, onde enfiava o nariz com a cabeça coberta por uma toalha. Ao lado, acompanhavam-me uma mãe zangada que alertava para os perigos de correr à chuva e os sobrinhos que se riam; mas visto que era importante prevenir problemas semelhantes, a  malta da risota acabava sempre por ter o mesmo destino... o pijama, a toalha e a panela... :)
Foto

sábado, 4 de janeiro de 2014

Abacateiro, Pereira - Abacate

     O abacateiro, Persea americana Mill., irmão do vinhático Persa indica (L.) Spreng., pertence à família Lauraceae, da qual fazem também parte, o til, barbuzano e o loureiro, os principais representantes da floresta Laurissilva.
  É uma das mais antigas espécies, mesoamericanas, domesticadas. O fruto, abacate (nome derivado de ahuacatl, "testículo" em Nahuat),   é rico principalmente em vitamina E e  potássio, possuindo ainda as vitaminas B6 e C. Hoje, pelo que sei, existem três variedades que resultaram do processo de domesticação por diferentes grupos locais e adaptações a distintos climas. A Persea americana var. drymifolia (abacate do México) com frutos pequenos, epicarpo fino, preto arroxeado;  a  var. guatemalensis, (abacate da Guatemala) de epicarpo rugoso; e a var. americana adaptada a regiões mais baixas dos trópicos, mais húmidas, com frutos arredondados a periformes, mesocarpo carnudo e epicarpo fino.
       Na ilha da Madeira, esta espécie pode atingir os 20 metros de altura, tendo sido introduzida para fins alimentares. Todavia, a população também a usa como medicinal, nomeadamente, a infusão das folhas para dores de cabeça, estômago, reumatismo, fígado e rins, sendo ainda empregue em cistites.     
       Grandes, médias, pequenas, lisas ou rugosas consoante a variedade, as pêras-abacates são um dos frutos mais apreciados na ilha da Madeira. Com açúcar, sal ou mel de abelhas, na salada de alface, com camarão, no pão ou saboreada por si só, implica apenas que saibamos o que precisamos, que muitas vezes, nem é o que gostamos...
No meu caso, gosto de pêra-abacates doces e amanteigadas, ricas em vitamina E, simples, sem confusões ou variedades à mistura,  ideais para iniciar bem o dia, afagando o estômago e a alma...

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

- O Fascinante Mundo das Plantas -

     Na época de Natal, os dias mais curtos e as temperaturas mais baixas, convida-nos a estar mais tempo em casa, e entre o convívio com família e amigos, fica sempre algum tempo disponível para ver um filme, um documentário enquanto bebericamos e queimamos a língua, com um cacau quente. Para os entusiastas das plantas fica aqui a sugestão, rever - O Reino das Plantas - realizado pela BBC e narrado por  Sir David Attenborough. Bom Natal!
 
 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Bolo de Mel de Cana de Açucar

       Nesta altura,  meados de Dezembro, após as típicas limpezas da época, a cera passada no soalho, o óleo de cedro nos móveis, saem dos armários da cozinha  as receitas, só vistas uma vez por ano e onde constam os ingredientes usados para a confeção dos típicos bolos de mel. 
      Neste bolo, misturam-se odores e sabores individualmente únicos,  mas soberbos quando em conjunto, as especiarias, Cinnamomum zeylanicum Garc. Ex. Blume  (canela) e Myristica fragans  (noz moscada), a cidra Citrus medica L., os frutos secos, Juglans regia L. (nozes), Prunus dulcis (Mill.) D.A. Webb. (amêndoas) e o mel de cana de açúcar, Saccharum officinarum L., produzido na ilha. Ironicamente, todas estas plantas são originárias do continente asiático, algumas chegadas até à ilha da Madeira devido à época dos Descobrimentos e possivelmente, à importância geográfica da região, como ponto de convergência entre os diversos arquipélagos macaronésicos e os distantes continentes.   
    Adicionamos ainda, a farinha, banha de porco, fermento royal, vinho madeira e outros tantos ingredientes. Algum tempo depois, teremos um bolo que deverá ser  partido com as mãos e acompanhado, se seguir a boa tradição madeirense, com um bom cálice de vinho Madeira, meio seco...

Foto

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Figueira

       A figueira, Ficus carica L. é nativa do sudoeste da Ásia, tendo sido introduzida na Ilha da Madeira  no início do povoamento. Pertencente à família Moraceae, pensa-se que foi domesticada na região do crescente fértil (hoje, Irão, Iraque, Síria, sul da Turquia, Jordânia, Israel e Egipto) e nas áreas secas a sul da Mesopotâmia. Os primeiros indícios do seu cultivo remonta aos 3000 bC, tendo posteriormente se propagado pelo Mediterrâneo, Índia, China, chegando apenas no século XVI ao Novo Mundo. Podendo atingir os 10 mts, as suas folhas são caducas (caem no Inverno) e os figos são pseudofrutos, sicónios, resultado de uma inflorescência.
        Na ilha da Madeira, o chá das folhas era usado para a gripe e constipações, diabetes e reumatismo, os figos ou mel do mesmo fruto eram colocados sobre os furúnculos e o látex usado para as verrugas.
         No Natal, em casa de famílias mais humildes, nas zonas rurais, a confeção do tradicional bolo de mel era feita com mel de figos que substituía o mel de cana de açúcar comprado nas mercearias.
Este mel era preparado nos meses de Verão, logo que os figos ficavam maduros. O processo era moroso, estes eram primeiro cozidos, depois colocados dentro de uma saca e apertados para extrair o suco, que era fervido e donde resultava um líquido doce, amarelo torrado e meio viscoso, avidamente comido com pão. Só após uma segunda cozedura é que obtínhamos o mel, pastoso, mais escuro e com um sabor estranhamente similar ao mel de cana.
Hoje, enquanto saboreio um figo bem maduro, o palato e a memória são estimulados, surgindo lembranças das visitas à casa dos meus avós, dos risos, do cheiro a férias de Verão, e do sorriso do meu avô rodeado pelos netos, que despreocupadamente riam e comiam figos. Crianças, acreditando ainda em contos de fadas, onde a vida é sempre  justa e simples, as pessoas francas e frontais, não se deixando iludir e manipular por ventos e marés, e que valores, tais como a lealdade, confiança, amor, etc. movem o mundo.

domingo, 27 de outubro de 2013

Maracujás

Passiflora molíssima
       Pertencente à família Passifloreaceae, o género Passiflora abarca cerca de 500 espécies. A maioria são do continente americano, todavia 20 são do continente asiático e australiano. Tipicamente são trepadeiras apresentam lindas flores e folhas trilobadas, serradas.
       Segundo Jardim & Menezes de Sequeira (2008), na ilha da Madeira existem 5 espécies, Passiflora molissima (Kunth) L.H. Bailey, que tornou-se numa espécie invasora,  Passiflora caerulea L., Passiflora ligularis A. Juss, Passiflora subpeltata Ortega, e Passiflora edulis Sims, todas elas com frutos comestíveis.
        Na ilha da Madeira, apenas a última era usada como medicinal, nomeadamente  para o estômago, intestinos e fígado (infusão da planta). Sendo ainda utilizada como eupéptica, que facilita a digestão, ou empregue contra o cancro de intestinos, devendo o indivíduo segundo a sabedoria popular, ingerir muitos frutos. 
Passiflora edulis, fonte: http://odandy.blogspot.pt
       A polpa do fruto, é ainda utilizada em sobremesas, sumos, poncha, etc. Cabe à imaginação de cada um usá-la, copiando receitas integrais de outrem, ausente de qualquer criatividade e seguindo meramente o  percurso comum, ou guiando-se  pela doce intuição, algumas vezes certa, outras vezes não, só o tempo dirá.
      Tal como na vida, a elaboração de uma boa sobremesa, neste caso um delicioso cheesecake requererá 500 g de paciência, 150 g de amor, 135 g de respeito, 5 folhas de compreensão, e por fim 3 /4  de intuição. Acrescente-se ainda atenção, para que ninguém mexa no creme alheio, não dar ouvidos a palpites  maliciosos e/ou perversamente angélicos,  perguntar a quem de direito. Colocar no forno durante 45m e deixar crescer. Por fim, acrescentamos a polpa de maracujá,  e confiando que as quantidades estejam acertadas, teremos um belo cheesecake, se não, ratificamos quantidades e tentamos de novo, em busca de algo que valha apena.
Receita: pela ordem referida - queijo fresco, açúcar, aproximadamente 3 ovos, gelatina, maracujás.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Gengibre

     Esta planta vivaz, Zingiber officinale Roscoe, segundo se sabe, é uma introdução recente na ilha da Madeira. Pertencente à família das Zingiberáceas é originária do Oriente, nomeadamente da Índia e China.
    Os primeiros registos do uso desta espécie são de Confúcio,  filósofo chinês (551 a.C. - 479 a.C.), que proferiu entre outras, as seguintes frases intemporais: "A essência do conhecimento consiste em aplicá-lo, uma vez possuído" ou ainda "Coloque a lealdade e a confiança acima de qualquer coisa; não receies corrigir teus erros".
    Através dos árabes, esta espécie chegou aos impérios grego e romano, que a usaram como condimentar e medicinal; mais tarde foi também apontada por Dioscórides e Plínio, que associaram o seu cultivo à Arábia e Somália. Foi mencionada também, no livro "Mil e Uma Noites" pelas suas supostas propriedades afrodisíacas, no século XIV na Inglaterra era já tão comum, como a pimenta.
     Atualmente, a Índia é o maior produtor desta planta; e estudos farmacológicos revelaram que possui propriedades digestivas, carminativas (impede a formação de gases no aparelho digestivo), sudoríficas e na Índia referem que tem efeitos afrodisíacos.
     Na ilha da Madeira, não são referidas utilizações pela população em registos mais antigos, hoje, em contexto urbano, concelho do Funchal, o rizoma é usado na culinária e em chá para gripe.
    No Verão, costumo usar a planta para preparar uma bebida refrescante, num jarro raspo parte do seu rizoma, adiciono sumo de limão (Citrus limon), uns raminhos de hortelã pimenta (Mentha piperita) e uma bebida gaseificada (água, 7Up, etc). No fim do dia, acompanha-me o pôr do sol, um copo meio cheio, a tranquilidade de uma escolha consciente, comprovada pelo tempo, e a certeza que só podemos ir até meio percurso, o restante, e óbvio, deverá ser realizado por outrem, sem véus ou tretas, seguindo apenas o que sente.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Bálsamo, babosa ou aloe

       Conhecida no Antigo Egipto à 2000 anos a.C, esta planta suculenta também chamada de lírio do deserto é  típica de ambientes xerófitos. Aloe vera (L.) Burm.f. é nativa de Africa e pertence à família das Liliaceae.
     Alexandre o Grande teve conhecimento desta planta, após ter conquistado o Egipto em 332 a.C., que seguindo o conselho de Aristóteles, mandou invadir a ilha de Socotorá, onde esta espécie crescia. Pretendia assim, assegurar "uma panaceia a mãos de semear" para o bravo soldado, ferido das duras e infrutíferas batalhas.
       Nos dias de hoje, o tempo, paciência e  genuíno prazer em cultivar e mimar a própria panaceia, escasseia, como tal as que restam são as facilmente adquiridas nos locais do costume. Estas são perfeitas para o superficial efeito pretendido, e amplamente difundido, todavia importa lembrar, que  "o verdadeiro bálsamo" reside nas células  do parênquima (mais interiores), donde é retirado o gel utilizado à milénios, e que deve ser claramente distinguido do látex (amarelo e altamente purgativo) proveniente de células mais exteriores, logo abaixo da parede da folha. Para isso, há que retirar os espinhos, observar para além das primeiras células e pretender extrair somente o gel, não ambos, só assim e por fim, obteremos o verdadeiro bálsamo. 

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Salva

      A salva ou Salvia officinalis L. é nativa do norte do mediterrâneo, todavia encontra-se cultivada por toda a Europa e América do Norte. Era conhecida como medicinal já na Antiga Roma, sendo mais tarde, século XVI, cultivada nos jardins dos mosteiros beneditinos.
       A salva caracteriza-se pelas suas folhas oblongas e pela inflorescência em verticilastro, as flores são típicas da família Labiatae de cor lilás a azul. Floresce no Outono e é conhecida pelo aroma forte, que lembra uma mistura de hortelã e cânfora, talvez por isso seja usada para perfurmar roupa e afastar as traças.
     Na ilha da Madeira, o chá da planta é usado como emenagogo, tónico, estomático, para aliviar bronquite, tosse e defluxos.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Dragoeiro

No século XV com o descobrimento do arquipélago da Madeira, novas espécies surgem e surpreendem os primeiros exploradores. Menciono por exemplo, o dragoeiro, Dracaena draco L.,   árvore de grande porte, de frutos amarelos e seiva "cor de sangue", que foi referida pela primeira vez nos diários de viagem de Luigi Cadamosto, navegador italiano, que em 1455,  descreve: "encontrei aí sangue de draco, que nasce em algumas arvóres. Extrai-se desta maneira: dão-se uns golpes de cutelo no pé da árvore e no ano seguinte, os ditos golpes deitam goma, que cosem e purificam e se faz o sangue." Aproximadamente, quinhentos anos após este registo, são mencionadas pelo Visconde do Porto da Cruz, Alfredo de Freitas Branco, algumas utilizações medicinais desta espécie.
A população madeirense, hábil na utilização dos seus recursos, passa a usar a resina depois de reduzida a pó e  mistura-a com aguardente, sendo ingerida em casos de contusões internas, denunciadas por sangue na boca. É também adicionada a feridas, de forma a estancar rapidamente o sangue ou ainda usada em contusões e pancadas.